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domingo, 31 de janeiro de 2010

Apostando no autor brasileiro

Diz assim o ditado popular: “tudo que é mais difícil é mais gostoso de se conquistar”. Mas bem que a publicação das HQs de autores brasileiros poderia ser mais fácil, não é?



Angelo Agostini - patrono do Quadrinho
Brasileiro

Infelizmente, excetuando-se Mauricio de Sousa, as editoras daqui ainda não dispõem de uma estrutura adequada para colocar uma série de títulos com personagens inteiramente nacionais de uma maneira regular nas bancas. Estrutura psicológica, digo.

Num país em que dezenas de empresas chegam à falência diariamente, os proprietários das editoras não se arriscam em promover apenas o produto brasuca, que, invariavelmente, é desconhecido do grande público, optando, então, pelo dito “material enlatado”. Ou seja: quadrinho estrangeiro – americano, japonês, italiano, etc. –, que, no entendimento deles, é o que pode garantir boas vendas.

No passado foram propostas medidas radicais como leis que obrigavam as editoras a colocar determinada quantidade de títulos nacionais nas prateleiras. Particularmente não acho legal, afinal, ninguém aqui é coitadinho, e nem está pedindo esmola. Nosso direito de publicar é legítimo, mas temos o dever de conquistá-lo! Mas como fazê-lo?

A verdade é que não há uma “fórmula mágica” para isso. O caminho é penoso, mas tenho certeza de que se o autor brasileiro estiver realmente empenhado, ele poderá chegar ao seu destino tão almejado.

Evidente que não basta apenas dominar o claro-escuro, a perfeição anatômica, e as angulações excitantes. Na verdade, não vai adiantar nada o pretendente ao estrelato desenhar mangá, cartum, ou ser cópia-carbono do “artista quente” do momento, se não tiver o mínimo de bagagem cultural.

Não falo exatamente de escola ou faculdade (que também são muito importantes, claro), mas sim, de ler jornais, revistas e livros; de ouvir rádio; de acompanhar o noticiário... enfim, de estar antenado em tudo à sua volta. Ser bitolado não está com nada, meu chapa!

O quadrinista é, antes de tudo, um profuso idealizador, e até mesmo, um formador de opinião. Pode parecer exagero, mas a elaboração de uma história, e a construção dos personagens exige do autor, além de criatividade inata, bastante sensibilidade, responsabilidade, sabedoria e uma boa dose de experiência de vida.

Com todos esses atributos aliados à disposição para se produzir, caberá então somente às editoras bancarem a empreitada. Agora, se mesmo assim estas preferirem ficar amarradas ao produto lá de fora e sujeitas à falta de criatividade que impera atualmente no quadrinho gringo, com certeza vão continuar estupidamente na amarga e retumbante queda de vendas de suas revistas.

Por que não, então, apostar em novos e promissores talentos tupiniquins, hein?

© Copyright Roberto Guedes. Todos os direitos reservados.

Esse texto foi publicado originalmente em 2002, na revista Desenhe e Publique Mangá Especial 1, da Editora Escala, e seu tema, infelizmente, continua gritantemente atual.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Batman está com a bola toda!

A última enquete do Manifesto feita para determinar o herói da DC Comics preferido da moçada, além de bater o recorde de participação de leitores, proporcionou uma vitória esmagadora para Batman, o Cruzado Embuçado de Gotham City, com 53% dos votos.

Em segundo e terceiro, como já era de se esperar, ficaram, respectivamente, Superman (21%) e Mulher-Maravilha (10%). Pouco mais atrás, Hal Jordan (6%), Robin (4%), Flash e Supergirl (2% dos votos cada). Para minha – desagradável – surpresa, o carismático e fanfarrão Arqueiro Verde não pontuou nada, o que me faz imaginar que, aqui no Brasil, a popularidade do multiverso DC se resume mesmo à “tríade sagrada” formada pelo Cavaleiro das Trevas, o Homem de Aço e a Princesa Amazona.

É claro – e eu sempre repito isso ao término das votações deste blog – que a enquete não tem valor científico algum, mas há de se considerar seu resultado, ao menos, como algo indicativo de tendência mercadológica e/ou cultural. Por exemplo: talvez reflita a decisão das editoras brasucas, do passado e do presente, de sempre lançarem títulos que apresentem esses três personagens como destaque maior.

Pela EBAL, Batman foi publicado ininterruptamente em título próprio, de 1953 a 1983, estrelando seis séries mensais distintas, duas delas em cores. Isso sem falar nas coleções bimestrais, nas edições extras, nos formatos tablóides, e em gibis protagonizados por Coringa, Robin, Batgirl etc.

De 1984 a 2002, o herói de Bob Kane esteve nas mãos da Editora Abril, passando por sete séries em formatos diferentes, além de graphic novels, minisséries e especiais sem fim. Editoras menores também se beneficiaram da logomarca mais manjada do comicdom, casos da L&PM, Mythos, A&C Editores (a própria Mythos), Brainstore e Opera Graphica. E nem vou entrar no campo da Televisão e Cinema, caso contrário não saio mais daqui.

Arrisco a dizer que uma enquete com os heróis Marvel seria um pouco mais acirrada, com votos equilibrados entre Homem-Aranha, X-Men, Capitão América, Hulk e, até mesmo, Homem de Ferro (que de uns anos pra cá anda muito em evidência). Será que vou queimar a língua com uma afirmação dessas? Hmm! Vamos aguardar o momento certo pra conferir isso...

Abaixo, uma listagem de outros artigos do Manifesto que deram destaque ao morcegão:

A história não lembrada de Batman

O amor perdido de Batman


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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

A Banca



Despreocupado, o menino descia a ladeira, sem nenhum tipo de pensamento na cabeça que fosse mais sério ou importante do que o fugaz desejo de ser plenamente feliz. Enquanto saltava os degraus desproporcionais da calçada, avistou, ao longe, na esquina, algo como a miragem do prazer definitivo: a banca de jornal.

Apressou o passo, ou melhor, partiu em disparada, como se antecipasse alguma coisa de ruim. Chegou ofegante ao reduto sagrado, templo maior dos colecionadores de Histórias em Quadrinhos, no exato instante em que o jornaleiro estava para fechar seu diminuto e enferrujado estabelecimento comercial. O garoto não se fez de rogado e bradou: “Opa! Moço, não fecha ainda! Vim pegar meu gibi do Capitão Ajax!”

O jornaleiro, um velhinho simpático, conhecido de todos no bairro há anos, olhou por cima de seus óculos, e com um sorriso tristonho nos lábios respondeu ao guri: “Ah, sim, aquela revistinha que você compra todo mês, não é? Ela está bem aqui, tome!” – o menino, eufórico, pegou o exemplar e começou a folheá-lo avidamente.

Com toda a certeza, não há cientista ou psiquiatra no mundo que possa descrever, sequer compreender, o que se passa na cabeça de um garoto naquele átimo de segundo entre o folhear de uma página para outra; mas o velhinho parecia entender, ao menos, o que se dava no pequeno e pulsante coraçãozinho do menino (talvez, devido, aos longos e cansativos anos de vida que lhe deram tantas experiências e uma sapiência inigualável). E comentou: “Será que o Capitão Ajax vai se dar bem desta vez?”

O rapazinho olhou para o ancião e disse desconsolado: “Ah... duvido! Ele até pode derrotar o vilão, mas, no final, a mocinha sempre pensa mal do Capitão e ele acaba sozinho...” – em seguida, fez menção de pegar o dinheiro no bolso do calção, mas o bom velhinho disse: “Vamos combinar uma coisa: vá pra sua casa e leia a revista. Se o herói ficar com a mocinha no final da história, você volta aqui e me paga. Mas se a má sorte do Capitão Ajax continuar, você só retorna o mês que vem pra pegar a nova edição. E ficamos assim. Você só me paga pela história em que haja um final feliz, tá bom?” – o menino não entendeu muito bem, mas concordou. E foi para casa ler a nova história de seu herói favorito.

Mal o dia raiou, e o garotinho já descia a ladeira com o seu exemplar do Capitão Ajax na mão. Mais uma vez, saltando por sobre os buracos e degraus da calçada com uma agilidade e destreza dignas dos maiores super-heróis. Mas o que chamava a atenção de todos na rua eram os gritos de alegria do pirralho: “Ele se deu bem! Ele ficou com a mocinha no final!” – porém, à medida que se aproximava de seu destino, notou um movimento estranho na esquina em que deveria estar a banca. Ao chegar perto, viu que a mesma não se encontrava mais ali, e, que em seu lugar estavam trabalhadores da prefeitura destruindo a calçada com suas britadeiras. Na parede do bar da esquina, uma placa com os dizeres: "Em breve: passarela – Mais uma obra da prefeitura para o conforto de sua população". Durante o mês que se seguiu, o desesperado menino procurou seu amigo jornaleiro por todas as esquinas do bairro, até que, finalmente, ficou sabendo por um vizinho, que o jornaleiro falecera.

A notícia foi um choque para o pequeno colecionador, que se trancou no quarto para lamentar e praguejar: “Que adianta o progresso se os sonhos morrem?” – durante horas ele ficou ali, desconsolado, olhando para o teto, mas, estranhamente, sem vontade de chorar. Assim que o dia começou a nascer e os raios fulgurantes da manhã entraram por suas cortinas tremulantes devido à brisa matinal, alguma coisa o impeliu a folhear uma de novo seu exemplar do Capitão Ajax. Só que, então, ele se concentrou na última página, na parte do expediente e da imagem do herói que ele não havia reparado antes, tão eufórico que havia ficado com o final feliz da história.

Na tal imagem, o balão do personagem dizia: “Meu amigo, este é o último número da revista. Infelizmente, as vendas caíram tanto que ficou inviável continuar publicando o gibi. Me despeço com o coração apertado, pois sei que você se manteve fiel ao meu lado na busca da verdade e da justiça, sempre torcendo por mim. Apesar do fim de minhas aventuras, espero ficar eternamente presente em seu coração, inspirando você a fazer o que é certo, levando felicidade a todos à sua volta. Fica com Deus, e um forte abraço do seu chapa, o Capitão Ajax!”

Enfim, as lágrimas chegaram, e com uma maturidade pouco comum para alguém de sua idade, o garoto compreendeu que a felicidade não pode ser comprada tampouco ser transferida para objetos, pessoas ou lugares – pois uma hora tudo isso poderá ser tomado de você.
Exceto os sonhos...

© Copyright Roberto Guedes. Todos os direitos reservados.

Esta minha crônica foi publicada originalmente no site Bigorna, dos amigos Eloyr Pacheco e Humberto Yashima, em 5 de novembro de 2007. Dedico-a mais uma vez, às mentes sonhadoras e a todos que possuem um coração de herói batendo dentro do peito.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Um resuminho dos 75 anos de publicações DC Comics

Em 1924, após tecer críticas duras aos seus superiores, o major Malcolm Wheeler-Nicholson, desligou-se definitivamente do exército americano e partiu para uma carreira de escritor de pulps magazines. Anos depois, mais precisamente em 1934, mesmo sem muitos recursos, fundou uma editora de comic books que logo mudaria a cara do mercado editorial americano, inspirando imitadores e influenciando a Cultura Popular ocidental de modo decisivo.

Batman e uma das formações mais divertidas da Liga
da Justiça

O grande problema de Wheeler-Nicholson é que ele era mais ambicioso que objetivo. Sua criatividade como contador de histórias entrava em conflito com seus arroubos administrativos e isso ficou evidente logo de início, quando batizou sua editora como New York Company, para, logo em seguida mudar para National Allied Publishing. Finalmente, a editora passou a se chamar National Periodical Publications. Indeciso, lançou sua primeira revista, New Fun Comics, em fevereiro de 1935, e, em seguida, outra com nome parecido: New Comics. Ambas traziam dezenas de histórias curtas. A maioria, de apenas uma página; porém, temendo uma possível confusão por parte dos leitores mudou os títulos para More Fun e New Adventure Comics, respectivamente.

Essas publicações traziam obras de jovens autores que sonhavam em se projetar profissionalmente até conseguirem realizar o sonho de trabalhar com tiras de jornal. Entre os iniciantes estavam Bob Kane e Jerry Siegel que, logo, tornar-se-iam muito famosos. O problema é que o major estava metendo os pés pelas mãos, afundando-se em dívidas com fornecedores, gráficas e com os próprios artistas. Foi aí que decidiu se associar a Harry Donenfeld e Jack Liebowitz – dupla que, aos poucos, foi comprando título a título de Wheeler-Nicholson, até que, por fim, em 1938, o militar aventureiro e sonhador saiu do ramo.

A nova cúpula editorial preocupava-se agora em arranjar um novo herói para estampar suas revistas e tirar a companhia do vermelho. Mas parecia não haver nada inédito e interessante o suficiente para atrair os leitores, até que Liebowitz decidiu ligar para um amigo do sindicato de jornais, à procura de alguma tira recusada. Ofereceram-lhe então, a história de um personagem chamado “Superman”, criado por Siegel e um desenhista chamado Joe Shuster. Ele vinha do fictício planeta Krypton e disfarçava-se na Terra como o tímido repórter Clark Kent. Sua estréia ocorreu nas páginas de Action Comics nº 1, em junho de 1938.

A Era dos Super-Heróis

Superman foi o primeiro super-herói dos quadrinhos e acabou inspirando o surgimento de uma enxurrada de personagens parecidos pelas editoras concorrentes, dando início à “Era de Ouro dos Super-Heróis”. Ou seja: homens e mulheres superpoderosos, em uniformes colantes, capazes de realizar as mais incríveis proezas. A National fez escola, e abriu espaço para diversos autores e suas criações maravilhosas, como no caso de Batman, criado por Bob Kane e Bill Finger para a edição 27 de Detective Comics, em maio de 1939. Essa revista tornou-se tão popular, que a editora ficou conhecida por suas iniciais, “DC” – que passaram a estampar as capas das revistas por volta de 1940.

A mesma coisa aconteceu com as revistas da All-American Comics, do publicitário Max C. Gaines, que conseguiu que elas fossem distribuídas pela National. O maior sucesso da All-American era o título All Star Comics, que introduziu a Sociedade da Justiça da América em sua terceira edição, no inverno de 1940. A Sociedade foi o primeiro agrupamento de super-heróis das Histórias em Quadrinhos: Flash, Lanterna Verde, Sr. Destino (Dr. Fate, no original), Elektron (Atom, no original), Sandman, Homem-Hora, Gavião Negro (Hawkman, no original) e Spectro.

No nº 5, surgiu a Mulher-Gavião, a primeira super-heroína dos quadrinhos, e nº 8 (dezembro de 1941), o psicólogo William Moulton Marston – um dos inventores do detetor de mentira – apresentou a Mulher-Maravilha. Logo, todos esses personagens seriam incorporados ao "universo" da National.

Nos Estados Unidos, os super-heróis atingiram um nível tão alto de popularidade que, alguns títulos como Superman e Capitão Marvel (da editora Fawcett) chegaram a vender mais de 1 milhão de exemplares por mês. Na época, a National entrou com recurso na Corte de Justiça, a fim de suspender a publicação do gibi do Capitão Marvel, acusando a Fawcett de plágio, enquanto que outra grande batalha desses personagens seria travada à frente das “Forças Aliadas”, quando então, foram usados como instrumento de propaganda ideológica contra o poder do “Eixo” (a aliança militar entre Alemanha, Japão e Itália). Mas com o fim da Segunda Grande Guerra em 1945, boa parte dos personagens perdeu a razão de ser, gerando o desinteresse dos leitores.

Já bem estruturada, a DC conseguiu manter vários de seus títulos em evidência, inclusive criando outro mito: Superboy – a versão adolescente de Superman, que ganhou título próprio em 1949. A popularidade de Superman o levaria a estrelar outras mídias, como programas de rádio, desenhos animados e tiras de jornal. A mesma coisa aconteceu com Batman, tornando-se, junto com o herói kryptoniano, numa das principais marcas de licenciamento da editora e um dos poucos títulos de super-heróis dos anos 1950, período em que eram dominados por outros gêneros de quadrinhos.

Mais uma vez pioneira

O editor Julius Schwartz era um apaixonado por ficção científica. Tanto que foi o primeiro agente literário do gênero no mundo. Entre seus mais notórios clientes, figuravam nomes de peso como H. P. Lovecraft e Ray Bradbury. Em 1956, quando a cúpula da DC o incumbiu de reformular velhos personagens da casa, decidiu embutir aspectos científicos às novas encarnações de Flash, Lanterna Verde, Elektron e Gavião Negro. Não que houvesse alguma pretensão maior que não fosse à de vender revistas, mas o fato é que, com essas medidas, Schwartz estava dando o pontapé inicial para uma segunda onda de quadrinhos de super-heróis: “A Era de Prata”.

O título mais popular da DC na época, Justice League of America (Liga da Justiça da América) – uma versão modernizada da Sociedade da Justiça –, inspirou o surgimento da revista Fantastic Four (Quarteto Fantástico) pela concorrente Marvel Comics. Sob o comando de Stan Lee, a Marvel apostou numa nova fórmula de contar histórias de super-heróis, mostrando-os como pessoas normais, repletas de problemas e defeitos. Seus personagens – Hulk, Thor, Homem-Aranha etc. – pareciam mais plausíveis e acessíveis, à medida que o multiverso DC tornava-se mais e mais complicado aos leitores.

O fato da DC exercer a contínua aquisição de personagens de outras editoras durante as próximas duas décadas – como os heróis da Quality (ex.: Homem-Borracha, Tio Sam e os Falcões) e os da Família Shazam entre outros –, acomodando os mesmos em diversas terras alternativas, contribuiu, e muito, para o desinteresse de sua leitura. Mas esse era um problema que a editora teria de conviver até 1985, quando então, organizaria melhor suas histórias. A “briga” acirrada entre as duas editoras motivou outras companhias a investir novamente em super-heróis (como ocorrera na “Era de Ouro”).

Surgiram os T.H.U.N.D.E.R. Agents da Tower, e Capitão Átomo, o novo Besouro Azul e Questão pela Charlton, só para não nos estendermos demais. Com a entrada de Neal Adams nos títulos do Homem-Morcego, o herói foi afastado definitivamente da figura infantilizada do seriado televisivo (onde era interpretado pelo canastrão Adam West), tornando Batman a grande “arma” da editora contra os títulos Marvel, já nos primeiros anos da década seguinte. Aos poucos, o mercado de gibis se definia em duas frentes. Por volta de 1969, a editora foi acoplada à Warner Bros, e ainda nesse mesmo ano, somente a DC e Marvel permaneceriam publicando super-heróis de maneira regular nos Estados Unidos – com a editora do Homem-Aranha, passando para o alto do pódio logo na virada da década.

Os Anos de Bronze

Em meados dos anos 1970, o editor-chefe Carmine Infantino começou a contratar alguns talentos da Marvel, como Jack Kirby (co-criador do Quarteto Fantástico) para desenvolver novos títulos para a DC. Surgiram então, New Gods (Novos Deuses), Sr. Milagre e Kamandi, entre outros. O badalado roteirista Steve Englehart também produziu uma série de histórias memoráveis para Batman enquanto Gerry Conway encarregou-se de escrever o primeiro crossover intereditorial da história: Super-Homem vs. O Incrível Homem-Aranha.

Com a volta de Kirby para a Marvel, a DC, temendo que a concorrência lançasse uma série chamada “O Retorno dos Deuses”, incumbiu Conway, O’Neil e Mike Vosburg de voltarem com os Novos Deuses na última edição de First Issue Special, um título try out, ou seja, de experiência. Deu certo, e o título New Gods voltaria a circular durante algum tempo. A série de Kirby pela Marvel receberia o nome de The Eternals (Os Eternos).

Por volta de 1977, a crise econômica que afligia o mercado editorial americano atingiu seu apogeu. A revista do Homem-Borracha (Plastic Man no original) foi cancelada na 20a edição. Notícias posteriores deram conta que Plastic Man teria sido o título menos vendido da década! Com o encalhe e cancelamento de diversos outros títulos da editora, esse período ficou marcado pelo jocoso apelido “Implosão DC”.

A nova chefona do pedaço, Jenette Kahn não esmoreceu com a crise editorial e tratou de posicionar os personagens da casa como marcas em potencial, licenciando-os para a televisão e cinema. Superman – o filme, foi um tremendo sucesso e trouxe enorme prestígio e dinheiro para a editora. Como símbolo do início da moderna gestão Kahn, a editora assumiu definitivamente o nome “DC Comics”, relegando ao esquecimento o formalíssimo “National Periodical”.

Em julho de 1979, foi publicada a primeira minissérie do mercado americano: World Of Krypton (Mundo de Krypton – publicada no Brasil num volume só, pela EBAL,). As minisséries tornaram-se, com o tempo, um produto muito popular e rentável para todas as editoras.

Superman, Superboy... a franquia
é enorme, e os processos de autores
sobre os personagens da DC se multiplicam
tanto quanto as suas infinitas Terras.

Finalmente, em 1985, a DC lançou a maxissérie em 12 partes, Crise nas Infinitas Terras, escrita por Marv Wolfman e desenhada por George Perez. O intuito de Crise era “limpar” o multiverso DC, deixando-o com apenas uma Terra para todos os personagens, e com histórias mais compreensíveis para os leitores. Aos poucos, todos os heróis sofreriam reformulações, “começando do zero” outra vez. John Byrne recontou a trajetória de Super-Homem; a Mulher-Maravilha foi retratada por George Perez e Batman acabou redefinido por Frank Miller em Ano I e O Cavaleiro das Trevas. Parecia uma nova DC Comics – mais madura e ciente de sua importância como difusora de Cultura Pop – que pintava aos leitores. No final das contas, muitos conceitos de outrora foram retomados, provando que nem tudo que é “velho” é fora de moda.

"A Era Moderna"

Durante algum tempo, a editora abusou de maxisséries que repercutiam em vários títulos da casa, como Lendas, War of the Gods e Invasion. Mas foi com Watchmen, dos britânicos Alan Moore e Dave Gibbons que a DC chamou atenção da mídia não especializada, tornando a leitura de Quadrinhos um negócio de “gente grande”. Watchmen foi levado às telonas recentemente, denotando o sucesso e prestígio da obra. Moore ainda reinventaria o Monstro do Pântano (de Len Wein e Bernie Wrigthson), gerando o selo adulto Vertigo. Sandman, de Neil Gaiman, seria outro grande fenômeno deste selo, até hoje reimpresso para novos interessados.


Ares de modernidade.

Mas durante boa parte dos anos 1990, uma crise de mau gosto tomou de assalto o mercado americano, incluindo os títulos DC – que trouxeram uma quantidade enorme de revistas com desenhos horríveis e roteiros pífios. Com o passar do tempo, eventos caça-níqueis como “A Morte de Super-Homem”, deram a tônica para os colecionadores, mas provaram-se completamente descartáveis para os leitores.

Entre o fim dessa década e princípio deste novo milênio, uma volta às origens tornou-se a ordem do dia na companhia (como comentado três parágrafos acima). Minisséries de luxo como The Nail (O Prego) de Alan Davis, Crise de Identidade, e a saga de Hal Jordan, “Renascimento”, produzida por Geoff Johns e Ethan Van Sciver, provaram que velhos heróis – quando bem produzidos – ainda podem gerar bons gibis.

Bem, acredito que pós 75 anos de pioneirismo e luta, a DC Comics irá continuar firme e forte na proposta inicial de Wheeler-Nicholson: a de oferecer entretenimento aos leitores com seus espalhafatosos personagens e suas mirabolantes histórias, apesar dos altos e (muitos) baixos, do contemporâneo mercado americano de HQs.

A DC no Brasil

Superman estreou no Brasil em 17 de dezembro de 1938, nas páginas de A Gazetinha 445, e Batman, em O Lobinho, em 1º de novembro de 1940. Mas Slam Bradley – personagem de Siegel e Shuster que estreou antes de Superman lá fora – já havia aparecido em Mirim 4, no primeiro semestre de 1937 (confira aqui).


O primeiro gibi brasileiro em cores
de Superman.

Em 1947, Superman ganhou título próprio pela EBAL de Adolfo Aizen, contabilizando, no decorrer das décadas, entre mensais, edições extras, especiais e almanaques diversos, mais de 500 revistas.

No começo, a fim de deixá-lo mais perto da realidade brasileira, batizaram Clark kent de “repórter Edu” e Lois Lane, de “Míriam Lane”, quebrando o encanto de que todas as mulheres na vida do herói terem como iniciais “LL” (isso só seria remediado nos anos 1980).

As revistas da EBAL eram em preto-e-branco, mas, de acordo com um texto de Edson Rontani em seu Boletim Ficção 1 de 1965 (o primeiro fanzine brasileiro): “Em 1951 houve grande concorrência entre revistas coloridas, com o lançamento de uma edição especial em cores de Superman 45 (junho de 1951).” Em fins de 1969, a editora começou a publicar revistas em cores dos super-heróis.

Na esteira do Homem de Aço, quase todo o panteão DC figurou nas publicações de Aizen. Em menor escala, as editoras O Cruzeiro (de Assis Chateaubriand) e RGE (atual Globo) também flertaram com material da DC Comics entre os anos 1950 e 1960; e o famoso jornal carioca de Roberto Marinho chegou a publicar as tiras do Filho de Krypton.

Em 1984, após décadas de parceria com a editora americana, a EBAL abriu mão de Superman e companhia, passando os mesmos para a batuta da Editora Abril, de Victor Civita – que por sua vez, os publicou até 2002, quando então, pularam pras mãos da Panini. Em paralelo, por um curto período de tempo, a Brainstore do editor Eloyr Pacheco publicou material DC, e, entre 2002 e 2006, a Opera Graphica editou mais de uma centena de edições em formatos que variaram de revista a álbuns de luxo, como 100 Balas, Batman Saga, Batman Cavaleiro das Trevas, Novos Deuses, Vertigo, Senhor Milagre, Orquídea Negra, Livros da Magia e por aí vai. Este que vos escreve, editou e traduziu quase a totalidade desse material.

© Copyright Roberto Guedes. Todos os direitos reservados.

*Leitor, se você é fã da DC Comics, não deixe de participar da enquete "Qual é o herói preferido da DC Comics?", localizada na lateral direita deste blog.

*Este texto é parte de um artigo publicado originalmente em 100 Balas 35, revisado e atualizado pelo próprio autor. Para o interessado em saber mais detalhes sobre a história da DC Comics, procure adquirir os livros Quando Surgem os Super-Heróis e A Era de Bronze dos Super-Heróis. Deste último ainda tenho exemplares para venda, ao preço de R$ 38,00 (frete incluso), com direito a dedicatória e autógrafo. Clique aqui, para saber mais detalhes.