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sábado, 18 de agosto de 2012

Tom, Peter e Roger

Não é de hoje que as pessoas me perguntam quais foram as minhas principais inspirações na criação do Meteoro. Se você googlar, é bem capaz de encontrar na rede alguma entrevista na qual eu digo que as histórias clássicas do Homem-Aranha e a primeira série do Nova (escrita por Marv Wolfman) são as minhas principais influências na concepção do Meteoro, lá atrás, nos anos 1980.

E é a pura verdade! Depois, com o passar do tempo e das edições, o personagem foi adquirindo identidade própria, se afastando por completo de suas "raízes"; até chegarmos às novas HQs publicadas no trepidante Almanaque Meteoro. 

Há quem garanta, contudo, que Meteoro é autobiográfico, mas... olha... eu não voo!

OK! Mas há mais uma obra importante que me influenciou: Tom Sawyer, do escritor americano Mark Twain. A primeira vez que eu tive contato com os livros protagonizados por Tom, As Aventuras de Tom Sawyer, Tom Sawyer - Detetive e As Viagens de Tom Sawyer, foi quando ainda cursava a 5ª série do ginásio (não sei como isso é chamado hoje), na década de 1970. Por incrível que pareça, era uma recomendação do professor de Língua Portuguesa. 

Eu já conhecia Tom Sawyer de uma famosa adaptação cinematográfica de 1938 que, de vez em quando, passava na televisão, mas, ao ler as histórias, me apaixonei de vez pela mitologia do personagem! Twain chegou a declarar que para compor a personalidade complexa de Tom, se baseou em alguns meninos que conheceu em sua infância. 

Já Stan Lee, me garantiu, em entrevista, que sua única semelhança com Peter Parker era a pobreza; embora, com tantos anos de estudo de suas HQs, eu possa assegurar tranquilamente que, se o personagem em si não tem muito de seu criador, a perspectiva e filosofia de vida embutida na série do Homem-Aranha traz tudo e mais um pouco de sua essência. 

Mas, afinal de contas, o que tem de tão especial esse Tom Sawyer? Bem...

Tom era um menino doce, porém levado. Alma nobre e aventureira. Criado pela tia Polly, amigo de Huckleberry Finn, e apaixonado pela garotinha loira mais linda da escola, Becky Tatcher. Isso tudo não soa familiar pra você? 

A seqüência da sala de aula, na qual ele é castigado severamente pelo professor no lugar da garota, é uma das mais emblemáticas do pequeno valente. Naquele momento, ele não apenas conquistou o coração de Becky, mas também inspirou o nascimento de outros heróis. 

Roger Mandari agradece...

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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Joe Kubert: honra nas alturas


 “A sensação que eu tenho é que os Quadrinhos não devem absolutamente nada a nenhuma outra arte existente", disse Joe Kubert, um dos maiores quadrinistas de todos os tempos, falecido em 12 de agosto de 2012.

Kubert, judeu, nasceu na Polônia em 18 de setembro de 1926, mas foi criado no bairro do Brooklyn, em Nova York desde os seus dois meses de vida. Pequeno, já demonstrava uma grande aptidão por desenhos, rabiscando com giz a calçada em frente a sua casa. Fascinado por Tarzan e Príncipe Valente de Hal Foster, Flash Gordon de Alex Raymond, e Terry e os Piratas de Milton Caniff, sonhava, um dia, trabalhar com Quadrinhos.

E isso não tardou a acontecer. Ainda adolescente foi estagiário no estúdio de Will Eisner e Jerry Iger. Lá, conheceu Dave Berg – o mesmo da série O Lado Irônico da revista MAD, e Bob Powell, um dos grandes ilustradores do meio, que trabalhou nas séries Sheena, A Rainha da Selva e Os Falcões.

Contando com tantas boas influências, Kubert conseguiu, em 1943, seu primeiro contrato com a National - a editora que viria a ser conhecida posteriormente, como DC Comics. Deu início a um período efervescente de sete anos, desenhando HQs de Gavião Negro e Flash (o primeiro, que por aqui, ficou conhecido como “Joel Ciclone”) entre outros personagens.

A partir dos anos 1950, com um traço mais marcante, Kubert trabalharia numa infinidade de títulos de terror para a editora St. John Publishing, além dos gibis Os Três Patetas e Tor (sobre um herói pré-histórico que cocriou com Norman Maurer). Foi pioneiro na linguagem 3-D (quadrinhos em três dimensões, que precisavam de um óculos especial para leitura e apreciação das imagens) com Mighty Mouse. O 3-D gerou uma onda tão grande no mercado de revistas que possibilitou ao artista comprar sua primeira casa. 

Com a edição 83 de Our Army At War (de junho de 1959), ele começou uma longa e produtiva associação com histórias de guerra, quase sempre com o editor e roteirista Robert Kanigher, idealizador do famoso Sargento Rock e sua Companhia Moleza. Em 1965, a dupla inovaria ao criar a mais inusitada série do gênero: Ás Inimigo! 

"Joe, eu tenho uma ideia para um novo gibi! Um ás da aviação da Primeira Guerra. Ele é solitário, rabugento e tem derrubado mais aviões inimigos que todos os outros pilotos de seu grupo juntos. Ele é diferente e ninguém chega perto dele. Seu único amigo é um lobo selvagem que vive numa floresta. Eles se comunicam sem palavras. Ambos são máquinas assassinas e dividem o mesmo destino: a solidão. E o pior, o piloto é um ás alemão!", disse Kanigher a Kubert.

Tempos depois, Kubert virou editor da linha de guerra da DC, mas continuou colaborando com os titulos de super-heróis. Arte-finalizou o traço de Carmine Infantino na história de estreia do novo Flash (Barry Allen) e desenhou algumas histórias de Rip Hunter, o Mestre do Tempo e, junto com o roteirista Gardner Fox, reformulou o Gavião Negro em 1961.

Durante muitos anos, os gibis de Tarzan foram produzidos pela editora Gold Key. A DC estava interessada em assumir a série, a fim de concorrer com a revista Conan, O Bárbaro, da Marvel Comics. Mas os detentores dos direitos autorais do personagem de Edgard Rice Burroughs estavam reticentes quanto ao fato de trocarem de editora, até que o editor-chefe da DC, Carmine Infantino disse que o responsável pelo projeto seria Kubert. A aprovação veio na hora. Sua versão do Homem Macaco é, para muitos leitores, a melhor de todas.

Em 1976, Kubert fundou a Joe Kubert School of Cartoon and Graphic Art - a primeira escola de Quadrinhos dos Estados Unidos - que revelou grandes talentos da indústria. Dois de seus filhos, Adam e Andy, seguiram seus passos na profissão.

Nas décadas seguintes, o artista diversificou bastante sua área de atuação. Desenhou o Justiceiro e arte-finalizou histórias do Hulk pra Marvel; fez Tex, o conhecido caubói dos  fumetti; além de produzir sua obra mais pessoal: Fax From Sarajevo – uma publicação em formato de livro, com capa dura e tudo, lançada pela Dark Horse – com uma HQ baseada em mensagens via fax que recebia, quase que diariamente, de um amigo, durante a guerra da Bósnia. Doravante, voltaria a produzir histórias de Tor e Sargento Rock para a DC. 

Durante anos, a EBAL republicou no Brasil suas histórias de Tarzan e Sargento Rock, além de personagens menos conhecidos como Príncipe Viking e Retalho. Em 2005 e 2006, a Opera Graphica lançou as 11 primeiras HQs do Ás Inimigo - até então, inéditas aqui -, e dois álbuns de luxo do Sargento Rock. Um deles, Entre a Morte e o Inferno, em parceria com o roteirista Brian Azzarello, da badalada série 100 Balas.

Joe Kubert participou de vários eventos de Quadrinhos, inclusive no Brasil. Deixou um legado gigantesco. Sua obra é reverenciada mundo afora. Um gigante dos Comics, sem a menor sombra de dúvida.

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Este texto é parte do artigo "Joe Kubert,  o ás do lápis e nanquim", publicado originalmente no álbum Ás Inimigo, pela Opera Graphica, em 2005; revisado e atualizado pelo próprio autor. O título "Honra nas Alturas" foi descartado de última hora da capa por razões puramente estéticas, mas aparece no texto de 4ª capa da referida edição.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

No princípio era tudo underground

De vez em quando eu gosto de dar uma fuçada em meus arquivos, pois sempre acabo encontrando alguma coisa interessante pra postar no Manifesto. Foi o que aconteceu outro dia, ao me deparar com o meu único exemplar da revista Udigrudi Especial 1, da Editora Phenix, lançada em novembro de 1990. 

Você deve estar perguntando agora "Mas e daí?". Bem, eu explico: esse gibi estilo underground traz uma das minhas primeiras HQs publicadas profissionalmente. Trata-se de uma história de seis páginas intitulada "1955", que conta de uma maneira pra lá de debochada como é que o Rock and Roll surgiu na América. A arte ficou por conta dos lendários Tony Fernandes e Wanderley Felipe - dobradinha que, por sinal, era dona da editora. 

A primeira vez que vendi roteiros foi em 1988, para o Gilberto Firmino da GED (Galvão Editora e Distribuidora), e, no ano seguinte, Tony e Wanderley publicaram algumas dessas minhas histórias pela Editora Ninja. A turma da Phenix era das melhores, e entre os seus colaboradores constavam os nomes de feras como Gedeone Malagola, Sebastião Seabra, Gilvan Lira, Jean Okada e Claudio Vieira (este último, inclusive, viria a ser o primeiro desenhista do Meteoro). 

A redação era na Avenida Ipiranga, centro da capital paulistana; mas depois, já sob o selo da Phenix, os caras se mudaram pra Rua Piratininga, no bairro do Brás. Por coincidência, eu trabalhava apenas a algumas quadras dali. Assim, vira e mexe, no horário de almoço, aproveitava pra encher a paciência dos chapas. Foi uma época boa. Eu ainda era novato e estava aprendendo com os feras! 

Um detalhe: a revista não traz data de lançamento no expediente. Pra descobrir a informação - sempre fundamental para os pesquisadores e colecionadores -, eu tive de recorrer a um velho fanzine que editava em paralelo às minhas atividades como roteirista profissional iniciante: o Status Quo Comics 3, na seção "HQ Geral".

Quadrinhos, Rock, fanzines... era tudo muito bom. E continua sendo... 

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