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Bate-papo com Gerry Conway

Gerry Conway foi um dos mais jovens autores a despontar no amanhecer da Era de Bronze, e escreveu alguns dos principais títulos da indústria dos Quadrinhos. Além de ser o homem por trás da história mais polêmica do Homem-Aranha em todos os tempos – e o autor do primeiro crossover entre Marvel e DC – ainda fez carreira e fama escrevendo para a Televisão e Cinema.

Ao ser indagado se conhecia o nosso país, ele disse: “Eu nunca fui ao Brasil, mas li sobre o país e seu povo, e se isso ajuda um pouco. Eu sou um grande fã de Nelly Furtado”. Apesar do equívoco quanto à nacionalidade da cantora canadense (de origem portuguesa) Conway ficou muito feliz em ceder, pela primeira vez, entrevista a um colega de profissão brasileiro.

Foi uma conversa longa, e boa parte dos depoimentos (a respeito de Gwen Stacy, da Saga do Clone original, Justiceiro, Superman vs Homem-Aranha etc.) foi inserida em meu livro Stan Lee: o Reinventor dos Super-Heróis, ou em reportagens publicadas nas revistas Mundo dos Super-Heróis e Meteoro Comics. Adiante, seguem apenas as declarações que ainda permaneciam inéditas, para deleite dos seguidores do Manifesto.

Tá falado!

Gerry, quando você começou a ler Quadrinhos?
Comecei a ler Quadrinhos ainda criança, quando eu tinha sete ou oito anos de idade. Minha primeira lembrança de uma História em Quadrinhos de super-heróis é uma do Superman, de 1959, por aí. Eventualmente eu descobri o Lanterna Verde, Flash, e a Liga da Justiça; além, claro, do Quarteto Fantástico e Homem-Aranha.

Quais são suas principais influências?
Eu diria que minhas principais influências como um escritor de Histórias em Quadrinhos no início de minha carreira foram Stan Lee e Gardner Fox. Stan me influenciou em termos de diálogo e desenvolvimento da caracterização [dos personagens]; e Gardner influenciou meu estilo de bolar a trama.

Você começou a trabalhar como roteirista pra DC Comics, por volta de 1969, certo? Fale sobre esse período da sua carreira.
Eu queria ser desenhista, mas as minhas habilidades nessa área eram, digamos, limitadas. Durante o verão – acho que de 1967 – comecei a participar das excursões semanais à redação da DC Comics. O passeio era realizado toda quinta-feira às 14h – olha só o que a gente lembra décadas depois. (risadas) Após algumas visitas me separei do grupo principal e me apresentei a editores como Julie Schwartz, Bob Kanigher e George Kashdan. Eu ainda não tinha completado 15 anos de idade! No decorrer do ano seguinte mostrei incontáveis ideias de histórias ​​e até escrevi um roteiro para Bob Kanigher a pedido do próprio – que categoricamente o rejeitou. Perto do próximo verão eu comecei a ficar bem desanimado. Em vez de ir às excursões semanais, perguntei ao assistente de produção que organizava os passeios, um cara legal chamado Walter Herlicheck, se eu poderia trabalhar na DC de graça por algumas semanas. Hoje chamamos isso de “estágio”, mas naqueles tempos era uma coisa um pouco diferente. Por alguma razão, o chefe do departamento de produção, talvez o Sol Harrison, disse que sim, e durante duas semanas eu trabalhei na produção e recorte de arte – credo! – entre outros serviços pequenos.

Você foi insistente. É um exemplo pra quem quer trabalhar nessa área...
Eu pentelhava os editores para que me deixassem escrever roteiros. Quando o verão acabou, eu continuei a dar sugestões pras histórias até que, finalmente, George Kashdan, outro cara bem legal, que assumira pouco antes o cargo de editor da revista do Gavião Negro no lugar de Julie Schwartz, mostrou interesse em comprar uma das minhas histórias. Só que Carmine Infantino foi efetivado como diretor editorial e demitiu George e vários outros editores, que foram substituídos por Dick Giordano e Joe Orlando.

Que azar!
Sim! Aí eu comecei a enviar ideias para histórias de Dick [Giordano], que me incentivava e trabalhou comigo a fim de desenvolver minhas habilidades como roteirista. Mas quando eu vendi minha primeira HQ, no verão de 1969, foi para o Murray Boltinoff. Ao que parece, ele achou que eu era um dos novos “garotos prodígios” do Dick – como Denny O'Neil e Steve Skeates, que foram apresentados à DC por ele, com resultados impressionantes. Depois de vender a primeira história ao Murray, pra revista de HQs sobrenaturais Tales of the Unexpected, fiquei por minha própria conta e, a partir do ano seguinte, comecei a escrever regularmente para Dick, em Witching Hour e House of Secrets. Curiosamente, demorou seis anos para que eu voltasse a escrever outra história pro Murray.

Foi mais ou menos nesse período que você começou a escrever para a Marvel, certo? Como isso aconteceu?
Tanto os roteiristas quanto os desenhistas da minha faixa etária, lá pelo final dos anos 60 e comecinho da década de 70, tinham um estreito convívio social. Apesar de eu ser o mais jovem do grupo – mesmo no colégio, enquanto a maioria dos outros já se formara na faculdade, com seus 20 e poucos anos – eu fazia parte daquele círculo, das festinhas, e acabei conhecendo caras como Archie Goodwin, Bernie Wrightson, Len Wein e Marv Wolfman. Marv, na verdade, eu já conhecia há anos, nos tempos das visitas à DC. Aí conheci Neal Adams, Denny O'Neil, Steve Skeates e, claro, Roy Thomas. Roy era o “número dois” de Stan Lee na Marvel Comics. Tornamo-nos amigos e eu o pressionei para que me desse uma chance na Marvel. Sabe como é, apesar de ter estreado no ramo escrevendo pra DC, a Marvel era onde eu realmente queria trabalhar.

Entendo. E como funcionava? Você conversava com Stan ou Roy sobre o planejamento das histórias?
Começou com Roy dando-me o “teste de roteiro” que, essencialmente, era escrever diálogos em algumas páginas desenhadas de uma história antiga do Capitão América. Ele gostou do resultado, mas Stan foi “morno”. Em seguida vieram alguns trabalhos picados, como um roteiro pro Sargento Fury e algumas histórias sobrenaturais pra revista Tower of Shadows, até que o Roy se sentiu confiante o suficiente com o meu estilo e me encomendou os diálogos de uma HQ do Ka-Zar que ele havia bolado. Daí pra frente outros trampos vieram, até que, finalmente, pintou uma oferta para trabalhar na Marvel em tempo integral.

Que você, sem dúvida, aceitou.
Eu aceitei! (risadas)

Quando você e Al Milgrom bolaram o Nuclear, um herói adolescente, a intenção era a de competir com o também jovem Nova, da Marvel?
Nem um pouco! Eu não vejo os personagens como similares ou conflitantes.

Jose Luis Garcia-Lopez colaborou com você em alguns ótimos projetos como Superman versus Mulher-Maravilha, Esquadrão Atari e Cinder e Ashe. O que você pode falar sobre ele? Dá pra dizer que  era o seu desenhista favorito na época?
Ele é um dos gênios não reconhecidos das décadas de 70 e 80 nos Quadrinhos! Ele era, e continua sendo, um dos meus colaboradores favoritos. Ele combinou as habilidades de se contar histórias de Ross Andru e John Romita com o desenho de Neal Adams, e mais a imaginação de Moebius e Jack Kirby.

Você escreveu e produziu séries de TV como Lei & Ordem, Hercules: A Lendária Jornada etc. Como é que surgiu essa oportunidade? No final dos anos 70 eu me mudei para Los Angeles, e pintou uma parceria com Roy Thomas para escrever roteiros. Além de Quadrinhos, eu sempre quis escrever para Cinema e Televisão. Sinceramente, eu me sinto bem confortável escrevendo para mídias visuais. Então Roy e eu escrevemos uma meia dúzia de roteiros, dois dos quais foram produzidos: Fogo e Gelo e Conan, O Destruidor – embora, em um deles, os créditos tenham sido divididos com outro escritor. Quando encerramos a nossa parceria, eu insisti em escrever para a televisão, e acabei tendo a sorte de encontrar produtores que estavam dispostos a trabalhar comigo.

Quais as principais diferenças entre escrever para gibis e séries de TV?
Do ponto de vista técnico, escrever roteiros para Quadrinhos ou TV é muito parecido. Ambos dependem de narrativa visual e de imagens dramáticas. Não é complicado para um roteirista de HQ se adaptar a escrever pra televisão, porque ele também lida com personagens que não são dele e apenas temporariamente. Achei relativamente fácil fazer essa transição.

No que diz respeito aos Quadrinhos, você tem algum arrependimento?
Sem arrependimentos, realmente. Tive a sorte de poder realizar meus sonhos de infância. Se há algo para se arrepender, é de não ter curtido mais plenamente tudo aquilo na época.

Saiba mais sobre Gerry Conway clicando aqui.

© Copyright Roberto Guedes. Todos os direitos reservados.  

Comentários

Tomás disse…
Gostei muito da entrevista. Não sabia desse começo de carreira do Gerry Conway. Como esses caras eram fãs de super-heróis da Marvel, não é mesmo? Depois ocorreu aquela profissionalização toda, as imposições editorias e hoje os quadrinhos estão sem graça nenhuma.

Parabéns mais uma vez pelo ótimo trabalho!
flavio disse…
É sempre muito bom ler entrevistas com esses Monstros Sagrados dos Quadrinhos.Obrigado,Guedes.
Sandrão disse…
Gerry faz parte de uma daquelas primeiras geraçõoes de fãs da Marvel que vieram a trabalhar com quadrinhos, esse tipo de artista faz uma falta enorme hoje em dia.
Não me lembro de ter lido nada dele que não fosse no mínimo muito bom.
Parabéns pela entrevista, Guedes.
Roberto Guedes disse…
Obrigado pelos comentários, pessoal! Sem dúvida, Conway é um dos grandes das HQs! E também fui muito gentil em conceder essa entrevista.
Anônimo disse…
Que beleza Guedes. Ótima mesmo a entrevista. Fatos curiosos, principalmente a forma com que ele começou a trabalhar na DC. Parece um cara bem gente boa, não?
E aquela história do fã "nível Roy Thomas" é impagável mesmo. Grande abraço,
Andre Bufrem
Roberto Guedes disse…
Valeu pela visita, Bufrem!