
Fevereiro de 1980.
É o início de mais um ano letivo para os alunos do Colégio Central. De forma lenta e preguiçosa, os jovens adentram o pátio da escola, falando alto e relembrando os bons momentos das férias – agora pertencentes a um passado recente. Rodinhas se formam, velhas amizades são retomadas e alguns pequenos flertes têm início. A algazarra, enfim, é instaurada – pelo menos, até o instante em que o sino ressoa estridente, alertando a todos que é hora de seguir para as salas.
Ao contrário de alguns de seus colegas, Rick não está assim tão desanimado com a volta às aulas. Além da expectativa de ser o último ano do colegial, ele curtiu com muita intensidade seus dois meses de folga no litoral paulista hospedado no apartamento de parentes, fazendo-o esquecer por algum tempo sua paixão pela Cidade da Garoa. Sua personalidade introspectiva sempre preferiu o asfalto e os paralelepípedos das ruas do bairro histórico do Ipiranga às areias da praia do Gonzaga, mas as emoções pelas quais passou em Santos foram tão intensas e deixaram marcas tão profundas em seu coração, que, provavelmente não cicatrizarão tão cedo – talvez jamais.
Alguma coisa o alegrou e, ao mesmo tempo o entristeceu demais na Baixada Santista, e seu pobre coração adolescente precisará de um bom tempo para recobrar-se. Assim, nada melhor do que enfiar a cara nos livros para tentar esquecer uma desilusão amorosa. Como se fosse algo assim tão fácil...
Seguindo uma rotina costumeira de já há alguns anos, Rick dirige-se para o fundo da sala – ora, ele pertence a “turma do fundão”. Talvez não seja proposital, mas ao sentar-se na última carteira da primeira fileira, encostado na parede, ele acaba por obter uma espécie de posição estratégica enxergando o ambiente por inteiro, e a todos os colegas de classe. Por outro lado, a professora, lá da frente, não parece ter uma visão direta dele, precisando, inclusive, levantar-se para vê-lo cochichar e rir com seus parceiros de bagunça.
Rick veste uma camiseta preta com o símbolo da banda Rolling Stones no peito: a provocativa bocarra vermelha e escancarada com a língua pra fora. E da mesma maneira que a trupe quarentona de Mick Jagger é considerada moralmente decadente e subversiva aos olhos da mídia e da sociedade, Rick também é um tanto quanto malvisto por alguns adultos de seu bairro e mesmo por aqueles alunos mais comportados e estudiosos.
Um preconceito exagerado, porém o garotão de 17 anos nem se incomoda, pelo contrário: adora ser comparado aos seus ídolos britânicos – mesmo que somente pelos aspectos negativos. Chamado de rebelde e indolente é constantemente (mal) julgado por sua aparência roqueira e postura desafiadora do que, propriamente, por suas idéias “avançadas” – que, a bem da verdade, ninguém ainda se deu ao trabalho de ouvi-las com atenção. Quer dizer, alguém fez isso, sim. Nas férias em Santos. Mas ela está longe agora. Distante de seus braços e do seu afeto.
Porém, com um visual desses, incrementado por sua vasta cabeleira cacheada e loira, não há canto da sala discreto o suficiente que o esconda da nova professora de História; uma senhora nipo-brasileira já com certa idade, baixinha, de semblante severo e com olhos de águia.
– Você, mocinho! Levante-se, por favor! – troveja a dona Tamiko – Que significa isso em sua camisa?
Enquanto todos se viram para ver quem é a primeira “vítima” do ano da lendária e temida professora, Rick esboça um sorriso cínico e coloca-se em pé.
– É a boca do Mick Jagger,
teacher! Não me diga que a senhora não conhece, né? – provocou, arrancando, no processo, gargalhadas da turma toda. Mas a mulher, experiente de décadas no árduo trabalho do ensino em escolas públicas da periferia (aonde sempre lidou com toda a sorte de jovens problemáticos e anti-sociais), mantém-se impávida, olhando fixa e friamente para o jovem, até que, em poucos segundos, um silêncio sepulcral toma por completo a sala.
– O mocinho não sabe que nesta instituição de ensino todos devem estar uniformizados... Trajados com o avental escolar? – Ele olha para o encosto da cadeira onde seu avental está desleixadamente pendurado e diz (já num tom mais baixo e respeitoso) – Sim, senhora!
– Então o coloque imediatamente! E feche os botões até a altura da gola, pois ninguém aqui é obrigado a ver essa língua horrível e obscena. – ensaia-se um burburinho nas últimas carteiras; são os terríveis amigos de Rick, Jam e Mau, segurando-se para não caírem na gargalhada. Rir um do outro é a premissa básica do dia-a-dia desses garotos debochados. Rick teria feito a mesma coisa se um deles estivesse em seu lugar.
O loiro rebelde obedece a sua enérgica mestra, mas deixa claro, por meio de um olhar enviesado, que ela está a comprar uma briga e tanto. Em seguida, voltando-se para sua mesa, antes de sentar, Tamiko emenda:
–Ricardo Guerra é o seu nome? Pois bem, senhor Guerra, prepare-me uma redação em letra de forma legível, com um mínimo de três folhas de papel almaço, sobre a importância da música na cultura popular... Para sexta-feira! Vale nota!
O rapaz senta-se enfim, humilhado perante os colegas de classe. Envergonhado, evita olhar para os lados, principalmente para Mau, o gozador, que faz sinal com as mãos, assinalando que ele se deu mal.
Rick fica ali, cabisbaixo, iracundo, a rabiscar qualquer coisa no caderno, até que, após alguns minutos ergue a cabeça e dá de cara com uma garota da primeira carteira da fileira da esquerda que o olha fixamente sabe-se lá há quanto tempo.
Surpreso, Rick retribui, encarando-a. Apesar do aparente transe pelo qual os dois passam, a mente analítica do rapaz percebe alguns detalhes com rapidez: que ela é loira como ele; que os seus fios de cabelos são desfiados (seguindo o modismo da rainha da
New Wave Debbie Harris do conjunto Blondie); que sua pele é de um tom alvo-branco; que seus olhos são como duas pedras preciosas cor azul, e que no computo geral, todas essas características formam o rostinho perfeito de um anjo.
Após alguns segundos, ela sorri meigamente, e se vira para copiar as anotações que a professora deixou no quadro negro. Apesar dos pesares, da desilusão amorosa ocorrida nas férias e do primeiro dia de aula tempestuoso pelo qual acaba de passar, Rick Guerra começa a achar que este será um ano e tanto em sua vida.
Ele não tem idéia do quanto está certo ao pensar assim.
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Este texto compõe o capítulo de um romance – quase finalizado – que retrata os sonhos e desilusões de uma geração, sob o ponto de vista de um jovem rebelde. Em breve, mais informações sobre a obra serão divulgadas aqui no Manifesto. Sua opinião e primeira impressão são muito bem-vindas.