Pular para o conteúdo principal

Joe Kubert: honra nas alturas


 “A sensação que eu tenho é que os Quadrinhos não devem absolutamente nada a nenhuma outra arte existente", disse Joe Kubert, um dos maiores quadrinistas de todos os tempos, falecido em 12 de agosto de 2012.

Kubert, judeu, nasceu na Polônia em 18 de setembro de 1926, mas foi criado no bairro do Brooklyn, em Nova York desde os seus dois meses de vida. Pequeno, já demonstrava uma grande aptidão por desenhos, rabiscando com giz a calçada em frente a sua casa. Fascinado por Tarzan e Príncipe Valente de Hal Foster, Flash Gordon de Alex Raymond, e Terry e os Piratas de Milton Caniff, sonhava, um dia, trabalhar com Quadrinhos.

E isso não tardou a acontecer. Ainda adolescente foi estagiário no estúdio de Will Eisner e Jerry Iger. Lá, conheceu Dave Berg – o mesmo da série O Lado Irônico da revista MAD, e Bob Powell, um dos grandes ilustradores do meio, que trabalhou nas séries Sheena, A Rainha da Selva e Os Falcões.

Contando com tantas boas influências, Kubert conseguiu, em 1943, seu primeiro contrato com a National - a editora que viria a ser conhecida posteriormente, como DC Comics. Deu início a um período efervescente de sete anos, desenhando HQs de Gavião Negro e Flash (o primeiro, que por aqui, ficou conhecido como “Joel Ciclone”) entre outros personagens.

A partir dos anos 1950, com um traço mais marcante, Kubert trabalharia numa infinidade de títulos de terror para a editora St. John Publishing, além dos gibis Os Três Patetas e Tor (sobre um herói pré-histórico que cocriou com Norman Maurer). Foi pioneiro na linguagem 3-D (quadrinhos em três dimensões, que precisavam de um óculos especial para leitura e apreciação das imagens) com Mighty Mouse. O 3-D gerou uma onda tão grande no mercado de revistas que possibilitou ao artista comprar sua primeira casa. 

Com a edição 83 de Our Army At War (de junho de 1959), ele começou uma longa e produtiva associação com histórias de guerra, quase sempre com o editor e roteirista Robert Kanigher, idealizador do famoso Sargento Rock e sua Companhia Moleza. Em 1965, a dupla inovaria ao criar a mais inusitada série do gênero: Ás Inimigo! 

"Joe, eu tenho uma ideia para um novo gibi! Um ás da aviação da Primeira Guerra. Ele é solitário, rabugento e tem derrubado mais aviões inimigos que todos os outros pilotos de seu grupo juntos. Ele é diferente e ninguém chega perto dele. Seu único amigo é um lobo selvagem que vive numa floresta. Eles se comunicam sem palavras. Ambos são máquinas assassinas e dividem o mesmo destino: a solidão. E o pior, o piloto é um ás alemão!", disse Kanigher a Kubert.

Tempos depois, Kubert virou editor da linha de guerra da DC, mas continuou colaborando com os titulos de super-heróis. Arte-finalizou o traço de Carmine Infantino na história de estreia do novo Flash (Barry Allen) e desenhou algumas histórias de Rip Hunter, o Mestre do Tempo e, junto com o roteirista Gardner Fox, reformulou o Gavião Negro em 1961.

Durante muitos anos, os gibis de Tarzan foram produzidos pela editora Gold Key. A DC estava interessada em assumir a série, a fim de concorrer com a revista Conan, O Bárbaro, da Marvel Comics. Mas os detentores dos direitos autorais do personagem de Edgard Rice Burroughs estavam reticentes quanto ao fato de trocarem de editora, até que o editor-chefe da DC, Carmine Infantino disse que o responsável pelo projeto seria Kubert. A aprovação veio na hora. Sua versão do Homem Macaco é, para muitos leitores, a melhor de todas.

Em 1976, Kubert fundou a Joe Kubert School of Cartoon and Graphic Art - a primeira escola de Quadrinhos dos Estados Unidos - que revelou grandes talentos da indústria. Dois de seus filhos, Adam e Andy, seguiram seus passos na profissão.

Nas décadas seguintes, o artista diversificou bastante sua área de atuação. Desenhou o Justiceiro e arte-finalizou histórias do Hulk pra Marvel; fez Tex, o conhecido caubói dos  fumetti; além de produzir sua obra mais pessoal: Fax From Sarajevo – uma publicação em formato de livro, com capa dura e tudo, lançada pela Dark Horse – com uma HQ baseada em mensagens via fax que recebia, quase que diariamente, de um amigo, durante a guerra da Bósnia. Doravante, voltaria a produzir histórias de Tor e Sargento Rock para a DC. 

Durante anos, a EBAL republicou no Brasil suas histórias de Tarzan e Sargento Rock, além de personagens menos conhecidos como Príncipe Viking e Retalho. Em 2005 e 2006, a Opera Graphica lançou as 11 primeiras HQs do Ás Inimigo - até então, inéditas aqui -, e dois álbuns de luxo do Sargento Rock. Um deles, Entre a Morte e o Inferno, em parceria com o roteirista Brian Azzarello, da badalada série 100 Balas.

Joe Kubert participou de vários eventos de Quadrinhos, inclusive no Brasil. Deixou um legado gigantesco. Sua obra é reverenciada mundo afora. Um gigante dos Comics, sem a menor sombra de dúvida.

© Copyright Roberto Guedes. Todos os direitos reservados.

Este texto é parte do artigo "Joe Kubert,  o ás do lápis e nanquim", publicado originalmente no álbum Ás Inimigo, pela Opera Graphica, em 2005; revisado e atualizado pelo próprio autor. O título "Honra nas Alturas" foi descartado de última hora da capa por razões puramente estéticas, mas aparece no texto de 4ª capa da referida edição.

Comentários

FERNANDO ZÈCA CORINTHIANO disse…
Mais um bom trabalho, Roberto! Continue firme aí trabalhando!
Anônimo disse…
Tenho os álbuns da Opera que você editou, que são muito bons. Assim como tenho todos os gibis do Rock da EBAL, que estão entre os meus preferidos daquela editora. Kubert era fera demais, um traço firme e elegante. Seu Tarzan marcou época.

Boa lembrança, Guedes!

Cesar
Gerson_Fasano disse…
Ele fez a diferença e vai fazer falta. Foi o Tarzan dele o que mais gostei. Aqueles 2 álbuns da Ebal com várias hqs reunidas foram relidos até que perdi a conta. Ficava horas apenas olhando os desenhos e notando os detalhes. Só mais tarde é que vim a descobrir de quem se tratava aquele desenhista que assinava as hqs.

E aqui vai uma confissão: depois que li a edição do Ás Inimigo, peguei dois aviões de brinquedo e ficava olhando as cenas de luta aérea e reproduzindo os movimentos dos aviões. Eram perfeitos.
Roberto Guedes disse…
Como todo grande artista que parte, sua obra permanece eterna no coração dos fãs.
Tony Fernandes disse…
Parabéns, querido bengala friend, pela excelente matéria sobre o grande mestre Kubert, que deu uma imensa contribuição para q os comics se tornassem cada vez mais respeitados.
Adorei. Nota mil, meu meteórico amigo! Muito sucesso procê!
Roberto Guedes disse…
Obrigado pelas palavras, Tony! Abração fraterno e tudo de bom pra ti, também!