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Dois Brasis distintos

* Um breve passeio pelo Brasil dos anos 1960 - começando pelo final da década anterior -, sob o prisma da Cultura Político-Musical *

Em 1958, João Gilberto gravou Chega de Saudade, considerado o primeiro disco de Bossa Nova. Um estilo musical que fundiu o Be-Bop e o Cool Jazz norte-americano com o romantismo do Samba-Canção, evitando, entretanto, os arroubos vocais deste último. 

Com harmonias ricas e um cantar “palavreado”, a Bossa Nova fez muito sucesso, em particular, entre a juventude classe média e universitária brasileira, e seria um contraponto ao Rock and Roll oriundo da América, cada vez mais influente entre a nossa juventude – desde que Nora Ney regravou Rock Around the Clock, de Bill Halley, ainda em 1955.

Enquanto Celly Campello estourava nas paradas de sucesso com Estúpido Cupido (1959), a Rua Augusta, na capital paulistana – então uma área chique, repleta de bancos, lanchonetes, livrarias e lojas de discos –, se configurava em ponto de encontro de jovens encarnando o James Dean do filme Juventude Transviada. 

Alguns dirigiam em alta velocidade, não respeitando os semáforos e jogando seus automóveis contra outros que vinham na direção oposta, desviando-se no último segundo. No Rio, a balada era no bar Mau Cheiro, no Arpoador. Às tantas da madrugada seguiam em suas lambretas e garotas nas garupas para a Barra da Tijuca, onde a algazarra recomeçava. 

A síntese pode soar ordinária, mas o consenso geral na ocasião dizia que a Bossa-Nova era papo-cabeça, e o Rock alienação.

A década seguinte começou agitada. O recém-eleito Jânio Quadros surpreendeu a todos ao condecorar o revolucionário Che Guevara, para logo abandonar o cargo de presidente da República (agosto de 1961) culpando misteriosas “forças ocultas”. Em seu lugar assumiu o vice João Goulart, de tendências esquerdistas, deixando em alvoroço os quartéis generais (era o auge da chamada “Guerra Fria” entre os Estados Unidos e a União Soviética). 

A UNE (União Nacional dos Estudantes) e a CGT (Comando Geral dos Trabalhadores), entre tantas outras organizações procuravam discutir as questões sociais na perspectiva de mobilizar a sociedade para as transformações que despontavam no horizonte

Em 1964, os militares tomaram o poder – e lá permaneceriam pelos próximos 20 anos. Três anos antes, surgia no Rio de Janeiro o CPC (Centro Popular de Cultura), cuja bandeira ideológica era a construção de uma cultura nacional, popular e democrática de esquerda. 

Os CPCs se espalharam pelo país e incentivaram a “arte revolucionária”, que ia desde a encenação de peças de teatro, como Eles Não Usam Black-tie, na porta de fábricas e sindicatos, passando por filmes como Cinco Vezes Favela, até a promoção de cursos de teatro, cinema, artes visuais e filosofia; com a argumentação de “conscientizar politicamente as massas populares”.

Com o estabelecimento da Ditadura Militar, os CPCs cobraram um maior engajamento político dos artistas bossa-novistas, tidos como parte da classe intelectual brasileira. Elis Regina, em seu programa O Fino da Bossa, na TV Record, passou a dar destaque às canções de protesto. Como no caso de Pedro Pedreiro (1966), de Chico Buarque de Holanda.

Pedro pedreiro está esperando a morte
Ou esperando o dia de voltar pro Norte
[...]
Esperando, esperando, esperando
Esperando o Sol
Esperando o Trem
Esperando o aumento
Para o mês que vem

Outra vertente, mais descompromissada, herdeira de Celly Campello, começava a ser desenhada quando Ronnie Cord gravou Rua Augusta (1964), composição banal de Hervê Cordovil que fez um sucesso assombroso:

Subi a Rua Augusta a 120 por hora
Botei a turma toda do passeio pra fora
Fiz curva em duas rodas
Sem usar a buzina
Parei a quatro dedos da vitrina
(Que legal!)

Roberto Carlos seria o líder involuntário – ou predestinado, se assim preferir – desse novo movimento musical popular que se alinhava, chamado “Jovem Guarda”. Na verdade, o nome de um programa dominical da Record, que estreou em setembro de 1965, com a finalidade clara de explorar a emergente cultura de consumo adolescente. 

Roberto, “O Rei da Juventude”; Wanderléia, “ATernurinha”; e Erasmo Carlos, “O Tremendão eram os anfitriões de uma turma nova: Jerry Adriani, Wanderley Cardoso, Martinha, Os Fevers, Golden Boys, Renato e seus Blue Caps... a lista é interminável.

Suas músicas eram adocicadas e bobas. Eles cantavam a paquera e as desilusões do romance juvenil, misturando ritmos, como o rock tocado pelos Beatles em início de carreira e o bolero. 

Mas apesar da ingenuidade aparente, a Jovem Guarda também propiciava um elemento transgressor, com suas gírias institucionalizadas – “papo firme”, “morou”, “um barato” – e a linguagem corporal, através da dança sensual e da indumentária básica: as moças vestiam minissaias e botas de cano alto, e os rapazes, devidamente cabeludos, usavam calcas boca-de-sino. Não à toa, “Quero que Vá Tudo pro Inferno”, de Roberto, se tornou o hino daquele movimento.

Logo os maiores expoentes de O Fino da Bossa e da Jovem Guarda estariam frente a frente nos festivais de música popular produzidos pelas emissoras de televisão Excelsior e Record. 

Eram dois mundos antagônicos, irreconciliáveis, habitando o mesmo espaço-tempo. Dois Brasis distintos. 

© Copyright Roberto Guedes. Todos os direitos reservados.

Comentários

Sandro Santos disse…
Excelente matéria, Guedes.

Dois mundos irreconciliáveis, porém com certas semelhanças.
Tenho que reconhecer a qualidade de várias composições da bossa nova e de seus autores, mas na minha modesta opinião de alguém que não viveu os anos 60, ela sempre foi um pouco protegida pela intelectualidade e elite brasileira.
Me parece que a bossa nova tirou muito espaço da "velha guarda" na mídia, gente como os cantores de boleros, samba-canções e por aí, uma música sofisticada tirando o lugar do mais popular. A Jovem Guarda acabou representando a mesma ameaça, só que agora era a música alienada tirando espaço da música sofisticada e intelectualizada.
Muitos que criticavam o rock brasileiro na época, acusando-o da óbvia influência americana, ou colonialismo para usar um termo da época, exaltavam a "genuína" música brasileira representada pela bossa nova, fingiam-se de cego para a clara influência do jazz como você colocou. Chamavam a Jovem Guarda de alienada, mas sempre eram muito condescendentes com a alienação da Bossa Nova.
Mas eram dois movimentos distintos que apresentaram muita coisa boa e algumas discutíveis, assim como praticamente todos os movimentos musicais.
Roberto Guedes disse…
Isso mesmo, Sandro! Havia essa rivalidade entre as "turmas", mas era algo positivo.

Hoje a parada é outra: a música brasileira, mesmo com vários estilos diferentes, soa homogênea no que diz respeito à total falta de bom gosto e qualidade.
Andre Bufrem disse…
Muito bom. Tanto a matéria, quanto o comentário do Sandro.
Não vivi a época mas acompwnhei todo este movimento na vitrola dos meus pais a partir da metade dos anos sete ta. A Bossa era "chique" mas a Jovem Guarda era muito mais divertida.
Roberto Guedes disse…
Vitrola boa essa dos seus pais, hein, Bufrem?

Abração!
Rom Freire disse…
Só discordo de você em um ponto, Roberto. Nem toda a música brasileira é composta de falta de bom gosto e qualidade. Ainda tem muita coisa boa rolando por aí, mas que, como é de se esperar, não toca na grande mídia, que prefere dar espaço a porcarias como o "funk" carioca, modinhas carnavalescas e demais dejetos. Mas a internet taí pra isso, nos mostrar o que tem de bom rolando no mundo underground, basta saber procurar. :)
Roberto Guedes disse…
Olá, Rom! Imagino que você se refere à resposta que dei ao Sandro e não ao artigo, não é?

Sim, você está certo. Sei que há muitos talentos por aí produzindo material de qualidade. Mas são casos isolados, não um movimento com potencial para expansão - como ocorreu, por exemplo, com o rock brasileiro na década de 1980.

Abraço!