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Herói sem graça

Depois da divertida passagem de Mark Waid pela série do Homem sem Medo, a desconfiança foi geral em relação às novas histórias escritas por Charles Soule. E não é para menos: Waid vai deixar saudade, pois escrevia de uma maneira que dificilmente será repetida por outro autor.

Seu Demolidor era leve, para cima, enquanto que nos dias de hoje, nas HQs de super-heróis, soar sisudo e depressivo é o lugar-comum.

É mais ou menos isso que vemos em Demolidor 12 (fevereiro/2017), da Panini Comics, com desenhos incrivelmente sombrios do veterano artista Ron Garney - algo bem diferente de seu estilo ensolarado visto, por exemplo, em gibis antigos do Capitão América e Homem-Aranha.

Não é que a trama seja ruim. Não é! O Demolidor se vê às voltas com um novo vilão no bairro chinês, o bizarro Dezdedos. Uma espécie de mafioso e líder religioso ao mesmo tempo. Além disso, o herói cego ganhou um sidekick: Ponto Cego.

Trata-se de um oriental que vive ilegalmente nos Estados Unidos, e que desenvolveu uma vestimenta que o deixa invisível. Uma alegoria aos inúmeros imigrantes "invisíveis" que habitam as cidades americanas.

Muita pancadaria em suas 124 páginas, que conta ainda com a participação do Tentáculo, aquela organização criminosa e sobrenatural formada por superninjas, criada no comecinho dos anos 1980 pelo lendário Frank Miller. Além disso tudo, o Demolidor agora usa um novo traje - bem feio, por sinal.

O que incomoda também nessa nova fase é a falta de inteligência. Algo que existia de sobra nos roteiros de Waid. Suas soluções para as capacidades sensoriais do Demolidor atingiram níveis superiores de detalhamento, além dos divertidos diálogos que escrevia. Aí você lê o texto de Soule e logo pensa: "Ué! Se fosse com Waid, com certeza o Demolidor teria sacado tal problema".

Na verdade, não teria nada de errado com esse arco de histórias, se tivesse sido publicado alguns anos atrás. É que tudo o que aconteceu nas HQs mais recentes foi apagado (algo corriqueiro em se tratando da Marvel do ano 2000 para cá).

Antes, a população sabia que Matt Murdock era o Demolidor. Uma biografia de sua carreira de vigilante estava sendo escrita, enquanto ele e sua namorada Kirsten McDuffie viviam em São Francisco. Para finalizar, a morte de Foggy Nelson havia sido forjada enquanto ele tratava de um câncer, até o médico atestar remissão completa.

Agora, a dupla identidade do herói é novamente um segredo mundial (exceto para Foggy), Kirsten não é mais sua namorada (e tampouco se lembra do romance), e ele age de novo em Nova York. Não vou entrar em detalhes de por que cargas d'água isso aconteceu - até pelo fato de não ter sido esclarecido na edição -, mas é algo decorrente de eventos narrados em Guerra Secretas (não a de 1984, mas uma nova saga envolvendo os heróis da editora).

Por essas e outras, ao final da leitura, a sensação como espectador é de infidelidade. Ora, você acompanha durante um bom tempo aqueles personagens e o desenvolvimento das tramas e, simplesmente, de uma para outra edição, tudo é jogado fora. E que se dane o investimento afetivo do leitor, não é, Dona Marvel?

© Copyright Roberto Guedes. Todos os direitos reservados.

Comentários

Sandro Santos disse…
O pior é que comprei esse gibi há dois dias. Se tivesse lido esse texto antes...
Parece que neste momento está sendo explicado no título do herói como ele recuperou a identidade secreta, algo envolvendo o Homem-Púrpura é que parece ser bem forçado.
Marcos Heck disse…
Acho que você foi extremamente infeliz no seu review.

1. A Marvel na All-New All Different Marvel adotou uma estratégia geral. Se passaram 6 meses do final de Guerras Secretas para essas edições 1.

Isso possibilita que o escritor crie mistérios que serão explicados aos poucos em suas HQs. E não existe a necessidade de ler Guerras Secretas. Apenas existe um período de 6 meses em que muita coisa aconteceu, ngm sabe o que é e aos poucos as HQs vão explicando.

Nos X-Men foi o período em que a névoa terrígena se tornou mortal e o Ciclope fez alguma coisa, mas ngm sabe o que. Mulher-Aranha está grávida de alguns meses. E no caso do Demolidor a sua identidade voltou a ser secreta. Mas como? Se é algo que desperta tanto assim o interesse, fique lendo para descobrir.

2. Você está comparando um run de 54 edições do Waid (que envolvem introdução de plots, desenvolvimentos e conclusões) com esse, que contém umas 8 edições e apenas introdução.

3. Sei que comparações são inevitáveis, ainda mais no Demolidor, mas elas quase nunca são positivas para a experiência da leitura. Sempre vai existir algo melhor, então ficar nessa pode nos fazer nunca realmente curtir uma boa HQ. Pq ela sempre poderia ser melhor.

4. Algo muito bacana de se destacar é que o run do Charles Soule mexe com esse lance da imigração e tals. Isso não seria nada de mais se o próprio Soule não fosse advogado por formação, com atuação justamente nesse tipo de caso. Verá com o tempo (não apenas em 1 encadernado) como essa vivência traz uma experiência mt bacana para a HQ.

5. Por último, quando você atribuiu ao Demolidor do Soule o título de "Herói sem graça", isso foi um elogio, certo? Pq Demolidor é isso, um herói sem graça. De qualidade, muito bem escrito e etc? Sim. Mas sem graça.

E isso é muito bem reforçado no próprio run do Waid. A HQ é colorida, tramas loucas, mas foi lá que praticamente tivemos a consolidação do Murdock depressivo. Que usa a fantasia de fachada para fugir do seu mundo.
Curtir · Responder · 11 h
Roberto Guedes disse…
Marco, eu não disse que é preciso ler Guerra Secretas. Releia o parágrafo em questão. O grande problema também não é se Soule escreveu uma HQ boa ou ruim - nem achei a HQ ruim, e digo isso no texto. O problema é que tudo que Waid fez foi apagado. E essa é a grande infelicidade aqui, não o meu review.
Roberto Guedes disse…
Sandrão, a explicação de como Matt recuperou a identidade secreta é irrelevante ante o fato da Marvel ter apagado tudo que aconteceu nos últimos anos. A Marvel se transformou numa editora patética.
Roberto você sabe que eu devo ser o único mortal que não gostou do que viu no Demolidor de Waid. Mas explico!

O motivo é basicamente o desenvolvimento a longo prazo dos personagens. Demolidor alterna entre um quadrinhos sério, um quadrinho muito sério e uma série leve e divertida.

Por uma questão de escolha, gostei do quê o Bendis e o Brubacker fizeram, mas devo confessar a armadilha que o último criou ao torná-lo líder do Tentáculo ao final de sua fase. Mas eu comprei isto! Comprei como ideia, digo.

Então a Marvel percebe: "Pisamos na bola!" e lentamente (ou rapidamente) desfaz.

O material de Waid é ruim? Não, em hipótese alguma, mas não é o quê eu esperava do personagem. Um dos nossos amigos disse que eu esperava um Matthew chorando pelos cantos. :) Menos, meu caro, menos!

Estendendo um pouco é como Mulher Maravilha: Terra Um (devo publicar um review no canal esta semana): apesar de ser o quê eu esperava da heroína, não é o quê eu esperava de Morrison. Onde estão as ideias grandiosas? As tramas que mexem com a realidade?

Em Demolidor de Waid foi o inverso: era o que eu esperava do autor, mas não do personagem!

Os reboots da Marvel (e da Marvel, e da Image, e da Valiant) são cansativos. Há pouco respeito para o quê veio antes. Dentro de alguns anos quando eu exorcizar plenamente o Demolidor de Bendis & Brubaker tenho a mais plena convicção que irei adorar o Demolidor de Waid e farei posts dizendo que me arrependo de ter me privado da leitura.

Mas é que a Marvel não me deu tempo para processar e desgarrar de uma visão do personagem e embarcar na próxima.

Parabéns pelo texto!
Roberto Guedes disse…
Fala, Jamerson! Realmente são muitas interpretações diferentes para um mesmo personagem. Esses heróis estão aí há décadas, e as incongruências em suas caracterizações - feitas por autores diversos - acaba se tornando algo natural.

Não algo plenamente aceitável, já que é para isso que serve a figura do editor: manter o padrão. Contudo, o DD sempre foi um personagem que trafegou em dois polos: o sóbrio e o aventureiro. E isso vem desde antes da apoteótica fase de Frank Miller nos eighties.

A versão proposta por Wally Wood - lá atrás nos sixties - já mostrava um DD introspectivo. Aquele DD "alegrão" só começou mesmo com a entrada de Romita na série, seguindo com a fase de Colan.

Depois Miller reinventou o personagem, mais maduro, e com todos aqueles elementos legais que ainda rondam sua mitologia. Na minha percepção, acho que Waid tentou mesclar um pouco disso tudo, sem perder o mote do verdadeiro sentido da palavra "daredevil" - a do cara sem medo, que encara o perigo como se fosse pura diversão (e não apenas uma missão, como na maioria dos casos de outros heróis).

Se analisarmos bem, ao tornar pública sua dupla identidade, para em seguida passar o tempo todo negando-a, ele estava apenas exercendo seu lado "daredevil"... se divertindo.

Brigadão por compartilhar suas impressões.