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Os objetivos do senhor Ditko

Há exato um mês, Steve Ditko aniversariou. Você não esteve por lá para cumprimenta-lo? Nem eu. Mas na ocasião, dediquei algumas linhas em sua homenagem, que podem ser conferidas no blog do chapa Bira Dantas – que, por sua vez, fez uma caricatura sensacional do filho de Stephen e Anna Ditko.

Ditko foi indicado para o "Jack Kirby Hall of Fame" de 1990, "Will Eisner Award Hall of Fame" de 1994, e teve seu nome creditado no primeiro longa-metragem do Homem-Aranha, em 2002. Mas não pense que isso o deixou gabola. Contrário a entrevistas, fotos e badalações, Ditko costuma dizer que sua obra fala por ele. Assim, concluímos de uma maneira nada subjetiva (como o próprio gostaria que fizéssemos), que por meio de seu trabalho compreenderemos quem ele realmente é, e quais são suas ideias a respeito do mundo.

Devido a essa postura reclusa, alguns o tomam por excêntrico – Gene Simmons da banda Kiss, por exemplo, queria saber se o cara é maluco –, enquanto outros o consideram esnobe. Há até quem deteste seu estilo de desenhar. Para o bem, ou para o mal, o fato inconteste é que ninguém fica indiferente aos seus quadrinhos. E se você faz parte da grande massa de privilegiados que leu as primeiras trinta e poucas aventuras do Homem-Aranha, provavelmente o considerará um verdadeiro gênio das HQs.

Sua carreira começou nos anos 1950, trabalhando para várias editoras ao mesmo tempo. Entre o final dessa década e o começo da seguinte, produziria com maior regularidade para a Atlas, de Martin Goodman, e pra Charlton Comics, do imigrante italiano John Santangelo. Foi mais ou menos nesse período que Ditko dividiria um estúdio em Manhattan com o ilustrador fetichista Eric Stanton, nascendo aí, uma parceria irregular e não oficial (em projetos de ambos artistas) por cerca de 10 anos.

Nos anos 1960, fixou-se na Marvel (ex-Atlas), onde desenhou inúmeras histórias de mistério e ficção científica do editor e roteirista Stan Lee. Alcançou notoriedade, ao co-criar (com Lee) o mago Dr. Estranho, e o já comentado, Homem-Aranha. Ainda na Casa das Idéias, também desenhou o Gigante e o Incrível Hulk, além de bolar o visual da primeira armadura vermelho-dourada do Homem de Ferro (considerada por muita gente a mais elegante do herói).

Em 1966, após se desentender com Lee, se mandou da Marvel, e aceitou o convite para retornar a Charlton, com a promessa de obter controle total sobre o andamento de suas histórias (mesmo ganhando bem menos). Assim, Ditko reinventou o personagem Besouro Azul, reformulou o Capitão Átomo e criou o Questão – personagem cujas histórias foram um veículo experimental para exprimir suas idéias inspiradas no Objetivismo. Idéias essas que ficariam mais explícitas com a concepção do personagem Mr. A (Mister A, ou em português “Senhor A”), publicado inicialmente no prozine* Witzend, de Wally Wood, entre 1967 e 1968. Até hoje esse material permanece inédito no Brasil.

O Objetivismo é uma filosofia essencialmente atéia criada pela escritora e dramaturga russa Ayn Rand, cujos princípios básicos são definidos pelo individualismo, egoísmo racional e capitalismo. Para os seguidores objetivistas, a realidade existe e, indiferente ao que cada um sente e espera dela, a razão torna-se o único modo de realmente percebe-la. O homem, portanto, é um ser que se encerra em si mesmo, vivendo em função de seus próprios propósitos, excluindo de sua vida o sacrifício pelos outros, e o sacrifício dos outros em favor próprio.

Em Mr. A, Ditko conta que o jornalista Rex Graine age como um severo vigilante ao trajar seu chapéu, uma máscara de aço e luvas de metal (visualmente, Mr. A se parece bastante com o Questão, e até mesmo com o Mestre do Crime, clássico inimigo do Homem-Aranha). De princípios inabaláveis, Mr. A não tolera os malfeitores e tampouco lhes dá colher de chá. Em geral, suas HQs terminam simbolicamente, com o criminoso dependurado em um abismo, prestes a cair – sabe-se lá em que buraco.

Em certa história, após desbaratar a tiros, punhos e pontapés uma quadrilha que seqüestrou uma garotinha, os criminosos pedem clemência, justificando que sua ação criminosa é fruto do ambiente em que viveram, e que, portanto, são assim “por culpa da sociedade”. Mr. A os ignora, mas quando a criança pergunta se ele não ajudará seus próprios seqüestradores, recebe uma curta e grossa resposta: “Não! Eu não ajudo qualquer um que acredite ter o direito de machucar você!”. Às vezes, também, os diálogos dos personagens perdem o caráter dramático e cedem lugar a discursos puramente filosóficos. Não é raro encontrar leitores que simplesmente acharam a série um “porre” por causa disso.

Independente de tudo, ao interpretar a ideologia de Rand escancaradamente em Mr. A, Ditko chocou muita gente e causou controvérsia no fandom, recebendo o apelido de filosofia do “preto-e-branco”, ou seja, sem “tons de cinza”, sem “talvez”, sem “meio-termo”. Perto de Mr. A, Questão não passa de um fascista de quinta (como mais ou menos Frank Miller o retratou em O Cavaleiro das Trevas II). O leitor brasileiro poderá vislumbrar melhor Mr. A, olhando para Rorschach em Watchmen. Todos pensam que Alan Moore se baseou no Questão, mas não é bem assim - vai por mim, intrepid one.


Neste momento você pode até achar incrível que o autor de Mr. A seja o mesmo que desenhava e co-planejava as heróicas aventuras do Cabeça-de-Teia, certo? Mas John Romita já havia alertado sobre isso quando afirmou que: “[...] se Ditko não tivesse tantas diferenças filosóficas com Stan, teria realizado muito mais coisas excelentes no título (Amazing Spider-Man)!” – o que evidencia de vez o quanto Lee, com sua visão mais humanitária, foi determinante para o desenrolar daquelas tramas e na formação de caráter do protagonista.

Afinal de contas, um herói que tem como preceito de vida a frase “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades” – praticamente a máxima cristã "[...] tal como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos." [Mateus 20:28] – não pode mesmo ter nada a ver com uma pessoa “individualista” e “egoísta” – racional ou não.

Para quem ainda insiste em afirmar que o Peter Parker dos primeiros anos seja um tipo autobiográfico de Ditko, vale lembrar que as falas, e de tabela, as motivações do personagem sempre foram escritas e boladas por Lee; caindo por terra aquela idéia de que o sobrinho de tia May exprimisse os pensamentos de Ditko. Mesmo sendo este, co-planejador das histórias. Quando o relacionamento entre os dois ficou insustentável só restou mesmo ao artista se mandar. Ele diz que Lee parou de falar com ele. O editor disse que a briga foi por causa da identidade do Duende Verde. Alguém mais garantiu que não foi uma coisa nem outra, mas sim, o fato de Goodman não repassar os royalties prometidos com as vendas dos produtos do fã-clube oficial Merry Marvel Marching Society. Pura questão objetivamente capitalista?
Só Ditko sabe...

Nesses mais de 50 anos de carreira, Ditko fez um pouco de tudo. Desenhou para os magazines da Warren, voltou a trabalhar com o pão-duro do Goodman na efêmera Atlas/Seaboard, e pra DC Comics fez Rastejante, Shade, Starman (Mutante e Astro, pela EBAL) e a dupla antagônica Rapina e Columba. No final dos anos 80, voltaria a Marvel para desenhar Speedball, entre outros projetos, como a quadrinização do desenho animado Fantasma 2040. Mas seu trabalho jamais foi apreciado como antes. Na verdade, a partir dos anos 1970, passou a ser visto por alguns editores como um artista “maldito” – assim como outros de sua geração, notadamente Wally Wood. Sua arte ficou tecnicamente defasada para as novas gerações, que nunca entenderam seu layout e narrativa seqüencial totalmente peculiares. Não que Ditko se importe com isso.

Na década de 1990, surgiu uma nova oportunidade de Steve Ditko trabalhar com Stan Lee numa revista em quadrinhos. Mas, infelizmente, seu radicalismo impediu que isso acontecesse – para chateação dos fãs, de Lee, e, quem sabe, até do próprio Ditko. Afinal, ele saiu da reunião com os olhos marejados.

*Variação da palavra “fanzine” (revista do fã), “prozine” é uma revista independente produzida por profissionais da área.

© Copyright Roberto Guedes

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Comentários

ZeBorba disse…
Bela matéria, Guedes.

Muitas curiosidades sobre o Ditko, algumas que eu nem imaginava.

Ditko rules!!!
José Valcir disse…
Eu pensava que radicalismo só era visto entre alguns quadrinhistas nacionais. Mas vejo que o Steve Ditko também era assim.
Wendell disse…
Guedes, parabéns pela belíssima matéria.
Sempre quis saber mais sobre Steve Ditko por causa do Peter e seu universo, bem como, por causa do Dr. Estranho. Como todo fã de quadrinho gosta de imaginar coisas (hehe), me veio à mente o seguinte: Peter deixa o ladrão passar na maior. Pensou em si mesmo e no seu bem estar, foi egoísta - idéia de Ditko. Tio Ben morre pelas mãos desse mesmo ladrão. Peter então por livre arbítrio assume o fardo, torna-se como Paulo devedor dos sábios e também dos ignorantes - idéia de Lee. Naquele instante seminal a dupla perfeita para o personagem. (êta delírio, rsrs)
P.S.: O que me fascina nos quadrinhos são metáforas como essa que você escreveu sobre Peter, brilhante.
Abraços! Wendell.
Paulo Joubert disse…
Fantástica matéria, Guedes! Repassarei para amigos. Abraço, Paulo Joubert
Anônimo disse…
F-A-N-T-Á-S-T-I-C-O!
É por essas e outras que o Aranha é um personagem tão fascinante e intrigante. Lee e Ditko bolaram o mais controverso super-herói que existe. Em sua entrevista ao blog "papo de quadrinhos" você coloca aquela história que o herói levanta os escombros pra salvar tia May em 1º lugar. Aquilo é puro Stan Lee. O sacrifício, o amor ao próximo. maravilhoso!
Será que não há possibilidade de Mr. A sair no Brasil?
Carlos
Anônimo disse…
Muito interessante o possível debate ideológico dos autores. Talvez reflita mais suas personalidades do que suas crenças. O Stan Lee virou um pop star, e o Steve Ditko, pelo visto, um recluso. Agora fiquei curioso sobre este Mr. A! Pelo visto vou ter que amargar essa, pois imagino que não deva aparecer por aqui.
Grande abração,
Gabriel Rocha
Sebastião disse…
Delícia de matéria, Guedes (isso - elogiar você - já tá ficando lugar-comum, rs...).
Todo anti-herói tem um bocado de Objetivismo né?
Abraço.
Roberto Guedes disse…
Amigos, vamos lá:

É verdade, Seabra. Na série Rapina e Columba, Ditko lidou com isso também, mas de uma maneira mais suave, beirando a ingenuidade.

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Gabriel, Carlos, realmente acho improvável que Mr. A saia por aqui.

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Wendell, muito interessante também o seu racicínio. Parabéns!

Só não posso afirmar categoricamente que na ocasião da origem do Aranha, Ditko já estivesse envolvido com o Objetivismo. Apesar de que, até aí, ele pode ter ficado interessado pela filosofia, exatamente por ela refletir sua linha de pensamento.

Em todo caso, os objetivistas (e, creio, Ditko também) vêem no "egoísmo racional" uma qualidade lógica de comportamento, enquanto que, para Lee, isso era pura falha de caráter. Um "defeito" de Peter.

Não podemos esquecer também que a premissa básica daquele novo universo que estava nascendo era o de ter heróis humanizados, com problemas sociais e de comportamento - o Coisa era amargo, Thor era orgulhoso, o Hulk era um grosseirão, Johnny Storm um folgado e rebelde... e Peter, um nerd egoísta filho da mãe. E foi com a morte do tio que ele deixou essas duas carapuças de lado, virando um herói de verdade (nada egoísta), permanecendo apenas o aspecto (negativo)da melancolia - afinal, ninguém é perfeito. rsrs

Joubert, Valcir, Borba, agradeço de coração os comentários!

Abraços a todos!
Sandro Marcelo disse…
Rapaz, essa do Mr. A é totalmente nova pra mim, mas isso me faz gostar ainda mais do trabalho de Ditko! E depois de saber sobre ele é impossível associar o Rorschach ao Questão! Muito legal todas essas informações! Mais um personagem pra me fazer caçar na web, rsrsrsrrs! Parabéns, Guedão, belíssima matéria!!!

DITKO RULES!!!
J Júnior disse…
"Gene Simmons da banda Kiss, por exemplo, queria saber se o cara é maluco" rsss...

Não conhecia o Mr. A, o questão foi iventado por Ditko!, nova tbm.

Qual sera o dilema sobre a identidade do duende em guedes... fiquei curioso!

Na minha opinião o Questão sempre foi um pouco Spirit d++, a Dc comprou direito por esses herois (um pouco Noir), a marvel poderia ter tirado um tbm!!!
Roberto Guedes disse…
Sandrão, Júnior, pra saber em detalhes essa história do Simmons com Stan, leia a matéria "Kiss: os super-heróis do rock'n'roll" que escrevi pro site HQManiacs. O link pra ela está no canto esquerdo do blog.

Já o "Caso Duende" é o seguinte: Ditko queria que o vilão fosse um completo desconhecido, alegando que é assim que as coisas aconteceriam na vida real, mas Stan optou por um personagem do cast - no caso, Norman Osborn.

Stan achou que isso não teria impacto, e no meu entendimento, ele agiu corretamente. Além disso, eles já haviam utilizado desse expediente de "completo desconhecido" com o vilão Mestre do Crime, tempos antes.

Abraços do "Mr. Guedes" rs
Gerson_Fasano disse…
Excelente matéria Guedão. Independente do que acreditava o Ditko ou o Lee, eu sempre achei que um dos sucessos do Aranha foi justamente essa mistura diferente de pessoas. Um querendo uma coisa, e outro puxando para outro lado. Funcionou muito bem mesmo. É o velho papo que a soma das partes dá mais para o todo.

E quanto a enquete... DR. POLVO RULES !!!!!!!!
Roberto Guedes disse…
Pelo jeito o "Dr. Polvo" vai ganhar, hein?
ZeBorba disse…
E eu votei no Duende, héin? hehe

Mas já votei no Dr. Polvo um dia, em outra enquete semelhante...

Enfim, não sou confiável nesse tipo de coisa hahaha

Ou talvez eu tenha me baseado somente nas histórias produzidas por Lee e Ditko... hmm... acho que foi isso.
Gerson_Fasano disse…
Dr. Polvo é O CARA !!! Foi o primeiro a derrotar o Aranha; a desmascará-lo (tudo bem que teve a explicação na época); foi em uma hq dele que morreu o irmão da Betty e o Capitão Stacy (fora a morte do Tio Ben, foram as primeiras importantes); foi morar na casa dele (dormindo com o inimigo); teve o Aranha como seu aliado (desmemoriado, tudo bem, mas o Aranha tava lá); criou o Sexteto Sinistro; e por fim: o melhor momento do Aranha foi em uma hq dele.

VAI "OQUINHO" !!!!
Roberto Guedes disse…
E quase casou com tia May... rs
Anônimo disse…
Gosto muito de Steve Ditko, mas nesse caso, fico com Stan.
Stan rules!
Nilo
Anônimo disse…
pusta matéria sobre o Ditko...muita novidade pra mim...
Franco
Anônimo disse…
Grande Guedes, desculpe ainda não ter comentado no seu blog - desde já o melhor que apareceu este ano sobre HQ, fácil, fácil.

Com mais calma, depois vou deixar uma mensagem bacana!

Grande abraço da Bahia,Chico.
Anônimo disse…
Beleza Guedes.
Não lembrava dessa matéria sobre o Ditko.
Concordo com você e alguns colegas sobre a inspiração do Rorschach.
Também acho que o ditko como roteirista não era tudo isso não. Quando era bem conduzido suas idéias colaboravam muito para o roteiro, mas sozinho... sei lá.
Abraço.
Andre Bufrem