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John Romita e a Princesa Mexicana

Essa eu tenho certeza de que você vai gostar, intrepid one. Pelo menos, se você for um dos fãs de John Romita, vulgo "Jazzy" Johnny, é evidente.

O desenhista começou sua carreira bem cedo, mas demorou a engrenar. Após ser dispensado da Atlas (nome que a Marvel ostentava em suas capas nos anos 1950) – quando o patrão Martin Goodman descobriu que Stan Lee acumulava em suas gavetas um estoque considerável de páginas inéditas de vários artistas –, Romita “sofreu” oito longos anos na DC Comics delineando histórias melosas de amor para o público infanto-juvenil feminino. Mas esse calvário estava com os dias contados.

Em 1965, os corredores da Marvel transpiravam novos ares. Prova disso é que quando Lee jogou uma pilha de gibis do Homem-Aranha, Thor, Quarteto Fantástico entre outros, no seu colo, e disse “Você não tem idéia do quanto esses heróis são populares!”, Romitão sabia que era pegar ou largar. E pegou – mesmo sabendo que iria ganhar menos do que em uma agência de publicidade que, na ocasião, também estava interessada em seus serviços.

Daqui em diante todo mundo sabe de cor e salteado o aconteceu, certo? Não? Bem, Romita começou como arte-finalista de Don Heck na revista dos Vingadores, logo em seguida desenhou alguma coisa do Hulk e do Capitão América e, enfim, assumiu as rédeas do gibi do herói cego – mas sem um pingo de medo – chamado Demolidor. Nada disso sem antes Jack “The King” Kirby lhe dar uns toques de como montar as cenas de ação no “Estilo Marvel”.
WOW! Que química perfeita!

Do herói escarlate para o gibi de certo Cabeça-de-Teia foi um pulinho, e logo o título Amazing Spider-Man tornou-se o recordista de vendas da editora (e na década seguinte, o líder de mercado). No começo os fãs estranharam (eu, inclusive, do alto da minha sapiência “Clube do Bloquinho”, confesso), afinal Steve Ditko era gênio! Mas à medida que as histórias avançavam, Romita se soltava cada vez mais, imprimindo beleza e graça painel a painel, página a página. E o Aranha jamais foi o mesmo. E nem os fãs.
Romita rules!

Calculo que pouco antes de ASM completar 60 números, Romita já estava co-planejando as edições com Lee – assim como Kirby já o fazia há tempos em Mighty Thor e Fantastic Four. Digo isso, pois foi nessa época que ele começou a esboçar com grafite azul os quadrinhos para Heck (que por sua vez, ficava fulo da vida), evidenciando uma carga maior de trabalho. Na realidade, Stan Lee, que sempre foi "macaco velho" queria aproveitar (no bom sentido, olha lá, linguarudo!) o talento de Romita o mais possível, e assim o desenhista virou uma espécie de “faz-tudo” da redação. Vem daí o apelido jocoso “Peido Velho”, pelo fato do "velho" sempre estar ali em “seu cantinho” a trabalhar. Fosse para retocar desenhos de outros artistas, ou na concepção de uma capa, e ainda quebrando o galho numa HQ do Capitão América...

E quem pagaria o pato numa hora dessas? A família, é claro. Não que o cara reclamasse, afinal até a esposa e o filho ele conseguiu enfiar na editora, transformando o Bullpen*, se não na casa da “Mãe Joana”, ao menos na casa do “Father John”...

Mas justiça seja feita: o clã Romita está ligado ao “universo” do Aranha desde muito antes de Romitinha estrear como desenhista profissional. Naquelas raríssimas viagens em família à praia estilo “farofa”, John Romita era obrigado a ouvir “sugestões” da esposa Virginia e de seus filhotes de como conduzir o relacionamento entre Peter, Gwen e Mary Jane: “Por que você e Stan judiam tanto assim do Petey, hein?” – quem mandou levar serviço pra casa, bonitão?

Numa dessas, o pivete Jr. veio com a idéia de um vilão diferente. O cara era um lavador de janelas e tinha um visual invocado com garras, máscara fechada e capa – algo assim “Spawn”, vamos dizer. Detalhe: Spawn veio bem depois. Inicialmente chamado “Stalker” (“Caçador” ou “Espreitador”), Lee gostou, mas optou pela alcunha “Prowler”, que aqui no Brasil ficou conhecido como “Gatuno”.

Porém, para o próprio artista, sua grande realização nas páginas impressas foi uma história em duas partes, publicada entre as edições 108 e 109 de Amazing Spider-Man, em que teve a oportunidade de – pela primeira vez – bolar sozinho a trama e render homenagem a um de seus maiores ídolos na indústria: Milton Canniff. Romita usou e abusou da série Terry e os Piratas para compor a sua “História do Vietnã” (como ficou conhecida entre os leitores a partir de então), deixando para Lee apenas os diálogos da trama: “Eu tenho de esclarecer algo, já que Stan não fará isso; seus diálogos foram leves e vibrantes, e, mesmo imprimindo velocidade à história, tiveram mais peso do que você possa avaliar!” – lembrou certa vez.

E agora que chegamos nesse ponto, podemos compreender o quanto Lee confiava nas habilidades artísticas e criativas de Romita. Mas talvez o próprio não fosse assim tão seguro. Explico: um dia, o desenhista veio com a idéia de levar o Aranha pra longe de Nova York, seu habitat natural: “Eu elaborei uma trama que se passava numa área rural do México, e que envolvia o folclore indígena.” Romita também pretendia gerar um clima à lá A Máquina do Tempo de H. G. Wells, com criaturas subterrâneas semelhantes aos morlocks. Sua única preocupação era não esquecer de desenhar algumas montanhas, para o caso do herói ter como se balançar com as teias.

A tal princesa mexicana era sedutora e má (reminiscências de Dragon Lady?), e protegida por dois guarda-costas grandalhões. E o Aranha, claro, seria o único a poder salvar o dia, ou melhor, um certo personagem que cairia nas garras da vilã. Infelizmente, devido ao acúmulo de vários outros afazeres, Romita não concluiu a história – tampouco chegou a mostrar as únicas seis páginas desenhadas a Stan Lee.

Ao assumir de vez a função de Diretor de Arte da Marvel, Romita se afastou da produção de histórias mensais. Depois de As Femizonas, projeto que foi abortado após a primeira história, ele só voltaria a desenhar HQs com periodicidade regular a partir de 1977, ao assumir as tiras de jornal diárias do Amigão-da-Vizinhança, em parceria com Lee (só podia). Após cinco anos de pauleira, voltou pra redação e foi ensinar o “Estilo Marvel” pra uma nova geração de desenhistas - até se aposentar. É o que eu sempre digo: a Marvel ganhou o melhor Diretor de Arte do mundo, mas os leitores perderam um desenhista e tanto. Bem, “Homem-Aranha vs. a Princesa Mexicana”, que é como Romita batizou a história, jamais viu a luz do dia. Mas pelo menos aqui, vocês tiveram uma palhinha dela, é ou não é?

* É como Stan Lee se referia à redação da Marvel.

© Copyright Roberto Guedes

Comentários

ZeBorba disse…
te linkei lá, guedão.

agora vai :) heheeheh
Carlos Henry disse…
O Romita pai é uma grande influência pra mim!Adoro a fase dele no Aranha e Capitão América.Já do "Romitinha" eu não curto!
Legal tb ilustrar esta matéria com um esboço dele!
wendell disse…
Ontem foi falado do cinema em relação as histórias em quadrinhos. Não vejo isso como algo ruim, pelo contrário, poderia ser muito melhor utilizado e fazer muitos conhecerem as HQ's. A história é longa mas vou resumir. Uma das primeiras coisas que li na vida foi uma revista do HA. Depois foi crescendo e fiquei "sabido" largando minhas HQ's. Voltei com o Raimi em 2002. De lá para cá não perdi nada do Aranha (principalmente material clássico) e sabe o que me deu um empurrão para despertar de novo a chama pelos quadrinhos? Matérias como essa do Guedes. Uma em especial: STRIPMANIA 2.
Cara, parabéns pelo blog. Está muito bom! Estava faltando um blog assim na net brasileira. Parabéns também pelos seus livros, especialmente pelo Era de Bronze. Linkei vc no meu blog: http://ivancarlo.blogspot.com/
Roberto Guedes disse…
Borba: obrigado pela divulgação, chapa!

Henry: Romitão realmente marcou gerações. Ele costumava se chatear nas convenções pois todo mundo elogiava os desenhos de Kirby, Buscema e Adams, mas quando chegavam até ele, só falavam das histórias do Aranha. Custou, mas Jazzy acabou entendendo que isso sim era a grande constatação de que fizera a coisa certa: "contar" uma HQ de maneira tão clara e precisa, que ninguém percebia que se tratavam de desenhos.

Wendell: puxa, amigo... assim você me comove. E toda vez que alguém diz pra mim que curtia Stripmania (que misturava HQs clássicas com matérias), eu fico um popuco triste com o cancelamento precoce do magazine. Mas a vida continua...

Gian: é uma grande honra pra mim recebe-lo aqui no Manifesto. E obrigado pelos elogios ao Era de Bronze.

Abraço a todos!
J Júnior disse…
Romita é o cara mesmo, acho que o Romita jr continuou bem a linhagem da familia!
Curto muito Spawn, mas tenho que admitir mesmo a sua grande aparencia com o Gatuno.
Apesar de ser alternativa, as Tiras do aranha o Romita mostra bem de que é feito. Otimas historias curtas e muito demostrativas.
é o Romita e o estilo Marvel personificado.rss.
Anônimo disse…
Formidável! Não conhecia essa princesa mexicana!
Carlos
Parabens Guedes pelo Blog, continue firme e mais uma vez parabens pelos trabalhos com HQS.

Um cordial abraço J Castelhano
Roberto Guedes disse…
Valeu, Castelhano!

Aproveito o ensejo pra dizer que o mais novo post sobre a revista KLIK entrou com atraso por causa de probleminhas técnicos no meu computador.

Bem, espero todos por lá (na postagem da KLIK).

Abraços!
Sandro Marcelo disse…
Como costumamos dizer: "CAramba! Ele fez de novo!!!" Só mesmo o Guedes para nos revelar certas coisas que jamais imaginaríamos!! Esse Blog vai fazer (já está fazendo) história!! PArabéns, Guedão! É por esta e outras que costumamos dizer: ROMITÃO RULES!!!
Roberto Guedes disse…
Romitão rules, Sandrovisk!
Parabéns pelo matéria e pelo blog, meu lugar preferido para relembrar um tempo tão agradável: nossa infância com as HQs..