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A triste parábola do Blues

“Acercando-se dele os discípulos, disseram-lhe: Por que lhes falas por meio de parábolas? Respondeu-lhes Jesus: Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não lhes é dado.” [Mateus 13: 10-11]

Afinal de contas, a História em Quadrinho reflete o mundo à nossa volta, ou é somente o resultado legítimo de uma mente criativa e alienada? Nela, tudo é fugaz e despretensioso, ou há mais por trás do nanquim impresso do que possa supor nossa vã sabedoria? Seria o caso do simples acaso, ou não há nada de paranóico em constatar que realmente um grupo de pessoas exerce a manipulação de massa por meio dos – não mais – inocentes gibis?

Antes que você comece a pensar que este primeiro parágrafo foi retirado do livro de Fredric Whertam Sedução do Inocente (para muitos, o libelo por excelência do caçador de pêlo em ovo), é preciso deixar claro que estas linhas foram redigidas por um apaixonado quadrinista, editor e pesquisador da dita Arte Seqüencial, OK?

Essa conversa de mensagem subliminar existe, só que ultimamente as coisas andam bem escancaradas. E não há nada mais convincente do que falar abertamente – às claras. Quando você vê em alguma telenovela qualquer, um casal de jovens transando na casa dos próprios pais, não se iluda. Não é ficção. O que eles estão dizendo é que isso é certo e seguro. Que a sua casa pode, e deve, se transformar num motel fuleiro para o seu filho saciar seus prazeres carnais. Que você tape os ouvidos, ora bolas!

E, por exemplo, quando o Governo Federal promove uma campanha para o uso de camisinha durante o Carnaval, pode-se muito bem entender isso da seguinte maneira: “Beleza, continuarei a ser promíscuo e depravado, contanto que não esculhambe com o controle da natalidade e não seja infectado pela AIDS!” – desconsiderando por completo os aspectos morais, sociais e psicológicos decorrentes de um ato impensado, instigado pelos baixos instintos. Por favor, não pense que sou algum tipo de santo religioso querendo pregar alguma doutrina ou qualquer coisa que o valha. Bem longe disso. Tenho lá minha cota de defeitos como todo mundo, e adoro aquelas antigas marchinhas carnavalescas.

Por essas e outras, não há nada escondido nas entrelinhas, seja em qual tipo de mídia for, ainda mais em tempos de internet – que é, ao mesmo tempo, um meio de comunicação visual, auditivo e literário – , quando as informações são disponibilizadas para quem quiser, numa velocidade tão grande que, às vezes, o sujeito acaba é mesmo por ficar desinformado. Como diria Goethe: “O que é mais difícil que tudo? O que parece mais simples: ver com os nossos próprios olhos o que está na frente deles.”

O fato é que vivemos tempos difíceis, intrepid one. Tudo parece arquitetado de tal maneira para convergir – mais adiante, logo mais –, para algo maior, e bem terrível. E a novidade desagradável é que isso pode ser visto também em nossas queridíssimas HQs. A essa altura você deve achar que “pirei por causa de Mary” após editar e traduzir 100 Balas durante anos; mas nada a ver, embora Brian Azzarello não seja nenhum tolo ao dizer que os fundadores da América “[...] não eram diferentes de você... eles eram ladrões!” (“Barganha” em Blues para um minute man. Opera Graphica, verão de 2006).

Se isso não te impressiona, parafraseio aqui George Washington: “O governo dos Estados Unidos não está em nenhum sentido fundado sobre a religião cristã. O governo não é razão nem eloqüência, é força!”

Tsc... sabe, o Blues é uma música triste e poderosa. Originou-se das canções religiosas conhecidas como Spirutals, interpretadas ao balanço da dança e do bater ritmado de palmas dos negros libertos americanos, que precisavam desafogar suas mágoas e desanuviar a mente das longas horas de labuta. Já “blue” (sem o “s”) é azul, a cor do uniforme do Capitão América, símbolo pátrio da nação mais poderosa do planeta Terra, morto covardemente pela própria namorada. Coitada, Sharon foi hipnotizada por um velho nazista, inimigo do herói. Mas isso não importa, já que o lindo Sonho Americano desceu pelo ralo, ou melhor, escorreu em sangue escarlate pelas escadarias do Tribunal de Justiça junto com o último suspiro de Steve Rogers.

Que injustiça! Que tristeza! Isso daria um tremendo Blues!
Mataram o Capitão, e em seu lugar colocaram um ex-agente da extinta União Soviética. Orra... isso, com certeza, deve significar alguma coisa, embora a minha ignorância não consiga vislumbrar exatamente o quê. Estaríamos presenciando a instauração de uma espécie de sistema político fascista na América, e de tabela, mundial?

Teriam “hipnotizado” o cidadão para que este atirasse no próprio pé? Ou melhor, no sonho de liberdade? A crise econômica que se abateu sobre o mundo todo diz mais do que você pretende ignorar. Vivemos hoje num mundo bem pequeno, que ao clicar do mouse, ou do digitar de um celular, conseguimos cobrir distâncias incríveis. Achamos e somos achados. É um mundo louco, cujas regras são ditadas por um punhado de gente que ninguém sabe exatamente quem é.

De uns anos pra cá, a quantidade de “câmeras de segurança” em praças e vias públicas brasileiras cresceu absurdamente. Vivemos em um gigantesco Big Brother. Até nota fiscal com CPF foi inventada: “Ô meu, nós já sabemos o que você tem na conta bancária, agora queremos saber o que você tem nos bolsos!” – e nos Comics, Capitão América se ferrou por não aceitar o registro de superseres. O pior é que muitos leitores aprovaram as atitudes do Homem de Ferro – o representante da gestão censora governamental. Quando citei Benjamin Franklin no editorial de Os Novos Vingadores 45 (outubro de 2007), houve quem retrucasse também. É que a verdade dói, né? – fala aí Frankie: “Aqueles que abrem mão da liberdade essencial por um pouco de segurança temporária não merecem nem liberdade nem segurança.”

Mas que nada!... agora o mundo tem Barack Obama, e o melhor de tudo: ele curte Quadrinhos! Assim como todos nós, ele é fã incondicional do Homem-Aranha e do Conan – se bem que o aracnídeo já fez pacto com o capeta, e o Conan... bem, o Conan vocês sabem...

Só fico um pouco ressabiado quando escuto que o adversário derrotado John McCain se reuniu com o presidente eleito para discutir uma tal de “Nova Era” de reformas econômicas e de segurança. “É só política”, dirá um cuca fresca, mas não deixo de me arrepiar ao ouvir essa expressão. Lembra-me das palavras de outro presidente, o idolatrado (não por mim) Franklin Delano Roosevelt: “Em política, nada acontece por acaso. Se acontece algo, pode apostar que estava planejado desse modo.” - e ao lembrar que Obama fez uma das campanhas mais caras da história política de seu país, com direito a uma propaganda de 30 minutos transmitida simultaneamente por sete emissoras de televisão, fico cismado se a prioridade do homem será mesmo com a cor da pele da minoria, ou com a minoria que detém a cor do dinheiro.

Parece que entramos definitivamente na era da globalização, em uma “Nova Ordem Mundial”. Em um mundo que, infelizmente, também está nos gibis.

© Copyright Roberto Guedes

Comentários

Anônimo disse…
Oi Guedes. Mais um texto belamente escrito. Aliás e o livro novo? Sai quando?
Voltando... Senti uma pitada de ressentimento sobre o que aconteceu ao Aranha no seu texto. Quando fala de coisas volateis, que poderão ser desfeitas, ou quando comenta o maldito pacto com o Capeta. Concordo quie o mundo está meio "estranho", com isso de câmeras e celulares em todos os lugares, mas não precisamos ter medo, acredito. É o mesmo tipo de apreensão, que, sei lá, tiveram as pessoas quando começaram a viajar de avião, achando que o mundo havia ficado pequeno, é a evolução, que chegou e não há o que fazer. Gostemos ou não. Talvez o mesmo ocorra nos quadrinhos, está tudo evoluindo, apesar de nós gostarmos das coisas, do jeito que nos lembramos. Eu gostaria muito que minha vida estacionasse nos meus 10 anos, vivendo com meus avós, em segurança total, sem preocupações, etc... mas a vida passa e agora "evolui" e tive uma filha. Será que daqui a 20 anos vou querer voltar no tempo, para esta época maravilhosa para mim? Com certeza. Mas vou ter que me acostumar com os novos tempos que virão. É por isso que continuo a gostar de quadrinhos, apesar de todas as lambanças. Por que sei que aquele bom tempo de quando comecei a ler não volta mais, e o que vemos deve ser apreciado sob outro prisma.
Não sei se viajei muito, ou se fugi do tema, mas apenas tentei explicar uma opinião minha, ok?
Abraço.
Andre Bufrem
Roberto Guedes disse…
Caro André,

Confesso que sou um pouco saudosista, sim. Em todo caso, a “parábola” nada tem a ver com o assunto “saudade”... tampouco com “ressentimento”. Acho que nessa você “viajou” mesmo. rsrs

Em todo caso, entendi sua linha de raciocínio, embora creia, ela se encaixaria melhor como réplica de algum dos outros tópicos já apresentados neste blog. Talvez no “Ele é o Homem-Aranha!”, sei lá...

Ah, e de modo nenhum pretendi desencorajar a leitura de quadrinhos (ora pois, eu trabalho com isso, não é mesmo?), mas sim, chamar atenção para algumas coisas que, por vezes, passam desapercebidas por nós – homens e mulheres sempre ocupadíssimos com os problemas do dia-a-dia – e que quando, enfim, nos damos conta, já é tarde demais para escapar.

Portanto, olho vivo, True Believer! :)
wendell disse…
Mais um belo texto, hein Guedes?
Bem, uma das minhas séries favoritas ultimamente é Thunderbolts. Eu gosto dos Thunderbolts porque são politicamente incorretos? Não. Gosto da série porque Ellis mostra claramente como um grupo de canalhas pode assumir o status de guardiões de um sistema corroído pela ferrugem e ainda saírem de mocinhos perante a massa. E não é assim que já aconteceu e ainda acontece na história humana?
Sandrão disse…
Gostei do texto Guedes, e também concordo com a opinião do Wendell.
Acrescento que a contestação sempre foi uma das melhores maneiras de impedir abusos e manipulações. Não a contestação irracional de qualquer coisa mas sim o espiríto e a vontade de não engolir tudo que nos é imposto.
Esse espírito contestador está na raiz do bom e velho rock e dos quandrinhos de super-heróis. Ou será que estava?
Acho que um super-herói é o tipo de personagem contestador por natureza, ele não aceita o que está estabelecido e age à margem da sociedade defendendo o que acredita.
Claro que ele vai se impor limites éticos e morais (não matar por exemplo), mas é um outsider basicamente.
Por isso é muito difícil aceitar quase todo um universo de super-heróis que se torna funcionário público de um governo. Onde foi parar a contestação.
Descanse em paz Steve.
Bira disse…
É, Guedão, o que vem dos republicanos só pode dar frio na espinha mesmo. O McCain apesar de se dizer anti-Bush, na prática defendia o mesmo ideário que o cara-de-imbecil Jr.
De qualquer forma, devemos sempre torcer pelo melhor.
Ou seja, que os EUA desinvadam todos os lugares que invadiram. Até porque tá mais que provado que esta política belicista não combateu nenhum terrorismo, apenas o fortaleceu e fez aumentar...
E pra completar, matou milhares de cidadãos (muitas crianças) inocentes. Como toda guerra sempre faz, a bomba estoura sempre do lado mais fraco: o povo.
Ahhhh, antes que eu esqueça:
Belíssimo texto!
Sebastião disse…
Prezado Guedes,
Stan Lee é realmente maravilhoso. Quando criança a gente já lia o Capitão América caminhando pelas ruas de Nova Yorque (nos belos desenhos de Gene Colan), se questionando sobre a política intervencionista do seu governo, sobre o modo de vida americano, sobre a CIA (shield), etc... Tudo na medida (simples) como teria de ser uma bela HQ. Afinal, que adolescente quer ler sobre isso tudo ou até mesmo entender?
Um dia desses mostrei uns originais de uma HQ minha para meu filho de dez anos, onde meu personagem subia o morro para resgatar um certo jornalista, antes que ele fosse torturado e assassinado por marginais... Meu filho olhou e comentou o seguinte: "por que você não faz ele combater um super vilão que quer conquistar o mundo ou coisa assim? Isso ai a gente vê todo dia na televisão". Fiquei prostado. Aprendi uma coisa que o Stan Lee sabia há muito tempo. Contestar sim, mas na medida certa, e com a devida maquiagem, caso contrário fica indigesto. Afinal estamos lidando com crianças.
Interessante que esse tipo de coisa acontece com todo amador que faz HQ de super-heróis. Todos pretendem fazer coisas sanguinárias, violentas, "contestadoras", mas perdem a mão e fazem coisas bem desagradáveis de serem lidas. E, obviamente, todos eles amam ler Marvel e DC, mas não admitem.
Opa, me desviei do assunto.
Finalizando. George Orwell foi um visionário filho da mãe... Não é à toa que todo primeiro anista de Ciencias Socias tem esse livro como obrigatório. E é um conceito que a maioria, infelismente, não entende... e, aparentemente, estamos caminhando sorrindo e "seguros" para algo pior que 1984...
Ou, citando Watchmen/Alan Moore, "quem vigia os vigilantes?".
Grande abraço.
Anônimo disse…
Guedes, você é um velho malandro especialista na composição das palavras. Se não, vejamos isso:
"...fico cismado se a prioridade do homem será mesmo com a cor da pele da minoria, ou com a minoria que detém a cor do dinheiro."
Simplesmente perfeito. Aliás, seu texto todo. Você fala de Deus sem soar religioso, fala de política sem cair no partidarismo, e melhor, fala de gibi como ninguém! E é só analisar todos os comentários acima para ver o quanto é abrangente as suas mensagens. Você está de parabéns! Na próxima eleição votarei em Guedão para presidente! rsrsrs
Rogério
Anônimo disse…
Não sei se mais alguém reparou, mas Guedes parafraseou Paulinho boca de Cantor em "pirei por causa de Mary". hahaha Hilário. Também voto em você, Genial Guedes!
Carlos
Roberto Guedes disse…
Carlos, Rogério,

Vocês são dois exagerados. Mal tenho condições de organizar minhas revistas, quanto mais o país. rsrsrs

Seabra,

Você comentou sobre a fase de Lee e Colan (amplamente subestimada por aí), e confesso que quase usei uma imagem de Steve sobre a motoca totalmente "Easy Rider" pra ilustrar o texto. É uma imagem em que ele está bem de frente e sorrindo, sem a máscara. Mas não consegui escanear legal, daí usei esta do Kirby.

Birão, Sandrão e Wendell,

Obrigado pelas inteligentes análises políticas, sociais e quadrinisticas em cima da "Parábola". Nessa troca de idéias e pontos de vista enriquecemos nosso conhecimento, não é mesmo? Particularmente, desconfio de todos os políticos. Seja "A" ou "B", de esquerda, ou de direita, democrata ou republicano. E em termos globais, a coisa torna-se mais complicada, pois os banqueiros deitam e rolam, e são os verdadeiros imperadores do mundo. Um deles, Paul Warburg (orra! ele tem "guerra" até no nome) disse que "gostem ou não, teremos um governo mundial. A única dúvida é se vamos cria-lo pela força ou com consentimento!"

Pois é, antes de aplaudir, vamos ver se as novas caras no poder não merecem vaias...

Abraços!
Anônimo disse…
Existe prêmio pra matéria de blog? Esta, sem dúvida, seria a campeã!!!
Flávio S.
Gerson_Fasano disse…
Como já disse antes, sempre achei que você se daria muito bem com um blog. Dá para falar de mais assuntos. Discordo de um ou outro ponto, mas é muito bom. É muito legal conhecer outras opiniões.

E o título do Blog caiu muito bem.

[]s
Gérson Fasano
José disse…
Tanto os autores de novelas da globo, quanto o cretino do brian amarelo têm um ponto em comum: ambos são arautos do gramcismo (de Antonio Gramscim, filósofo marxista-leninista que considerava o capitalismo antes de tudo um padrão de regras religiosas e morais, e que, destruindo isso, a dominação esquerdista se daria naturalmente). Os autores das novelas globais querem impor a população que coisas como promiscuidade e gravidez adolescentes são coisas "normais", e danem-se os pais! Já o brian "amarelo" se mostra um estulto pseudo-intelctual como muitos de sua geração (alan múúú, nil gayman, et caterva), arrisca frases pseudo-históricas de efeito, reduzindo os eventos históricos a um esquerdismo de algibeira (só mencionando o lado ruim das coisas, no caso, os "ladrões" que invadiram a América), desrespeitando as milhares de famílias que chegaram no continente americano a partir do século XVI e que contribuiram com muito trabalho, não raro com a prórpria vida, para construir uma nova civilização (ou, ao menos, uma nova esperança).
Anônimo disse…
Concordo com José ao falar dessa novelas podres da Glob, mas no caso de Azarello, discordo num ponto: o que o roteirista disse é a respeito dos "pais fundadores", ou seja, de uma elite intelectual e de influência política, não do povo em si. E o texto maravilhoso do Guedes deixa isso bem claro, ao parafrasear George Washington logo adiante, onde diz que o governo não está fundado sobre o cristiano, como costumam dizer por aí. Lincoln, que era cristão, morreu baleado. Kennedy também. Luther King idem. E relendo a "parábula do blues" outra vez, percebo de forma mais clara que Guedes não está falando de comunismo ou capitalismo, mas sim de algum tipo de poder secreto, ou melhor, de "um grupo de pessoas" manipuladoras. Pelo menos, é o que avaliei desse texto.
Rogério
José disse…
Bem, não li esta HQ do amarelo, mesmo porque não perco meu tempo com autores inúteis. Pelo que Guedes reproduziu no texto, "os fundadores da América... eram ladrões", há uma generalização abejeta, digna de um mentecapto de grosso calibre. Então, só me resta parafrasear Nelson Rodrigues: "brian amarelo é um quadrúpede de 24 patas!"
Roberto Guedes disse…
Salles, o Rogério observou bem. A referência não foi em cima do povo, mas sim, de uma elite intelectual, econômica e política mal intencionada.

E isso é fato, infelizmente.