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Quando Gwen se foi...

Dezembro de 1972.

Fazia um frio terrível naquele final de tarde de sexta-feira. As ruas da Grande Maçã estavam todas enfeitadas para as festividades natalinas e as pessoas se apressavam para comprar os presentes de última hora. Mas nada disso parecia importunar um certo espectador, que por trás do vidro embaçado de uma janela, fitava o movimento abaixo, porém, com os pensamentos bem distantes dali.

Com ele na sala estavam mais três homens, discutindo questões de trabalho. O falatório não parecia capturar sua atenção, até que um deles disse em alto e bom som: – Ela é muito caipira! – os outros dois riram
comedidamente, e o distraído, enfim, se manifestou.

– De quem Gerry está falando, John?
– Da Gwen! Ela é muito certinha, Stan. Um peso morto nas histórias do Aranha! Não serve pra nada... só fica choramingando pelos cantos!

Stan, surpreso, arregalou os olhos, enquanto Gerry, o mais jovem ali presente se levantou, e, titubeante, entrou na conversa. – Bem, eu estou há pouco tempo escrevendo esse título e... e talvez não escreva tão bem quanto Stan e Roy – apontando para o outro moço de franjas e óculos enormes sentado no lado mais extremo da sala – mas acho que posso incrementar o lance entre Peter e Mary Jane...

– Mary Jane? Mas ela é a “vilã” do triângulo amoroso – indagou Stan, praticamente indignado. Gerry ficou pálido e pensou: – Aiaiaiaiai... será que abusei da confiança? Só falta eles me tirarem da Amazing e botarem pra escrever Millie the Model... – naquele mesmo segundo, Roy saiu de seu cantinho e acalmou o rapaz.
– Calma, Gerry. Ninguém está criticando suas idéias, tampouco seu estilo de escrever. Na verdade, John nunca gostou da Gwen, e há tempos pensa em despacha-la pro “limbo”!

Dessa vez, todos os presentes soltaram estridentes gargalhadas.
– É verdade! Jazzy Johnny sempre preferiu a Mary Jane... só porque ele é o criador visual da ruiva, não é mesmo, chapa? – completou Stan, abraçando discretamente seu amigo John.

Este, meio envergonhado, respirou fundo e, com um sorriso malicioso nos lábios, retrucou – OK, mas você nunca se conformou com isso, e sempre me pediu para desenhar Gwen mais sexy, usando minissaia... tudo, com a intenção clara de transforma-la num clone platinado da ruiva.

– Clone? Sabe, isso me dá uma idéia...
– Agora, não, Gerry. Precisamos decidir de vez o destino da Gwen! – cortou Roy.
– “Destino”? Como assim, Roy?
– Stan, é o seguinte: o Aranha é o nosso principal personagem. Seu título é o que mais vende. Isso acontece, porque os leitores se identificam com um sujeito altruísta que só quer fazer o bem, mas cuja vida particular insiste sempre em “jogar contra”.
– Grande novidade... eu que inventei isso!...
– Pois é... e você não acha que um namoro estabilizado feito o de Peter e Gwen, não vai contra essa premissa básica do herói azarado e solitário?

Stan coçou a cabeça, insinuando que a linha de raciocínio do colega o pegara de surpresa. Deu uma volta, sentou em sua confortável cadeira de big boss, colocou os pés sobre a mesa e disparou: – E vocês acham que trocando Gwen por Mary Jane, a vida do herói ficará mais agitada? Ou que as aventuras ficarão mais emocionantes? Vejam bem... os leitores amam Gwen. Vocês querem fuçar num vespeiro! Não precisamos casa-los... vamos enrolar o quanto for possível. Assim como os caras da distinta concorrente fazem com Superman e Lois Lane há décadas. – Um silêncio sepulcral tomou o ambiente. Roy, John e Gerry se entreolhavam ansiosos, esperando que alguém rebatesse aqueles argumentos aparentemente imbatíveis.

Súbito, uma leve batida na porta (que estava entreaberta). Era a secretária.
– Sr. Lee, o diretor daquela universidade quer saber se o senhor confirma a palestra de hoje à noite?
– Claro que sim, querida. Diga: você achou aquela pasta que pretendo levar ao pessoal da Cadence a semana que vem?
– Está com Marie. Vou lá buscar para o senhor.
– Não precisa. Tenho mesmo de trocar uma palavrinha com ela. Com licença, cavalheiros. Já volto.

John, bonachão como sempre, sacudiu os ombros e disse – Nem sei porque fui dar palpites... afinal, você é o editor aqui – olhando para Roy. Em seguida, virando-se para Gerry – ...e você, o roteirista!
– Imagina, John! Você é o diretor de arte da Marvel! Além disso, sabemos de sua ligação com o título! Foi você quem o transformou num sucesso!

Com as bochechas ruborizadas, John olhou pela fresta da porta para certificar-se que a barra estava limpa, e sussurrou – Shh... não deixem Stan ouvir isso. – mais uma vez, risadas estrepitosas tomaram o local.

Do fundo do corredor, ouviu-se a voz alta de Stan – Hey, rapazes! Qual é a piada?
Aproveitando o momento de descontração, Gerry tomou fôlego e respondeu com outra indagação – Stan, podemos seguir em frente com a nova proposta?

Stan demorou um pouco para responder. Dava para ouvir suas gargalhadas e das outras pessoas da redação. Provavelmente riam de alguma piada de Marie ou das caretas de Gary.
– Hã? Ah, claro que sim, garoto. Vão em frente... – e voltando-se de novo para os outros, Stan continuou – ...sabem, a Marvel sempre esteve na vanguarda do mercado! Novidade e ousadia são com a gente mesmo. Não é à toa que somos a Casa das Idéias, hein? Já contei como Jack e eu bolamos o Quarteto?...

Na sala dos fundos, John, Gerry e Roy conferenciavam animadamente sobre a história que seria publicada na edição 121 do Homem-Aranha... enquanto o som da voz de Stan parecia cada vez mais distante.

Parte deste texto – publicado originalmente em Quartel-General 2ª série 1 (agosto/2000) – foi revisado, ampliado e atualizado pelo próprio autor.

Os acontecimentos, a ambientação e os diálogos acima narrados são fictícios, e, com certeza, nada ocorreu dessa maneira. Porém, foram levados em conta vários depoimentos e entrevistas com as partes envolvidas.

© Copyright Roberto Guedes. Todos os direitos reservados.

Comentários

Anônimo disse…
Que texto, cara!
Adorei principalmente a ironia no final. A voz de Stan sumindo enquanto Roy, John e Gerry bolavam a história da morte de Gwen. Stan não era mais a voz ativa da editora.
Carlos
wendell disse…
Pow! Quem não gostaria de estar em uma conversa dessas hein? Por motivos que não sei explicar (mas não é sempre assim? rsrsrs...), Gwen sempre foi minha preferida. Quando se fala na Gwen penso no Peter e também em Phill Sheldon.
E eu simplesmente desconsidero aquela história produzida por J.Michael Straczynski e Joe Quesada.
Sebastião disse…
Texto maravilhoso, Guedes.
Digno dos grandes romancistas.
Na minha modesta opinião a morte da Gwen se explica por esse diálogo e mais além. Ela é loira, linda, uma bomba sexual, escaldante. Era perfeita demais pro Peter. Além do mais ela era apaixonada por ele. Muita areia pro caminhãozinho dele... Romita não aguentava isso... tinha problemas em casa (a esposa berrava nos seus ouvidos "mata essa sem vergonha!! Mata!"), ou seja, os autores eram pessoas comuns, se casavam e tinham relações com pessoas comuns - "os homens preferem as loiras, mas casam com as morenas", mas fazem isso porque as belas geralmente custam muito caro (como qualquer produto), e o Peter, todos nós sabemos, é um duro. Ou era, quando eu lia Homem Aranha.
Grande abraço e me desculpe pelo texto bizantino.
ZeBorba disse…
Quase me senti no Bullpen vendo e ouvindo essas figuras falando. Demais! :)
J Júnior disse…
OTIMO!
O maior acontecimento na vida do aranha.
Hoje o acontecimento de um dia a mais, é bem moderno mas se compara no choqe.
Anônimo disse…
Matou a pau, Guedes! Gwen era sensacional!
Rogério
J Júnior disse…
Não é o assunto em pauta, mas eu não canso em defender essa nova fase do homem aranha!
Sem identidade revelada,Sem Mulher,
Sem dinheiro... o peter fudido de sempre... a unica coisa que voltou foi seu lançador de teias...
é meio uma volta as origens!
Forçada, mas legal!!!
wendell disse…
Se nós pudéssemos esquecer toda a cronologia do Aranha essa fase seria até bem vinda. Mas será mesmo que para produzir boas história seria necessário fazer "Um Dia a Mais" e causar problemas cronológicos inimagináveis. Acho que o cerne da questão está em se fazer qualquer história para vender revista e depois forçar a barra para desfazê-las. A Marvel, principalmente com o HA, padece desse mal. Não será de se espantar se amanhã essas histórias da fase "Um Novo Dia" sejam ignoradas pelo menos em parte. Por que então não fazer algo mais consistente. Estou lendo como um universo paralelo. As histórias "desse" Peter estão até divertidas. Esse tema me inflama (rsrs), quase parei com o HA.
Sandro Marcelo disse…
Não aconteceu assim , mas do jeito que o Guedes escreve ´como se houvesse realmente acontecido desta maneira! E o momento mais marcante da vida do Aranha é sem dúvida a morte de Gwen. Não existe OMD, BND nem Saga do Clone nem nada que alcance a magnitude desta história tão marcante que repercute até os dias de hoje!
Anônimo disse…
Que texto lindo...
Solange
Um genuíno e marvelistico ROBERTO GUEDES...parabéns!
Roberto Guedes disse…
Valeu, André "True Believer" Portocarrero! :)
Tadeu disse…
A morte de Gwen Stacy foi o maior erro de seus autores. Gwen era a musa de todos aqueles que liam o gibi do Homem-Aranha; mulher pela qual todos sonhavam e gostariam de ter uma igual. A partir de sua morte, os roteiros do Aranha nunca mais foram os mesmos e o herói humanizado passou a ser só mais um na enorme legião de mascarados existentes. Uma pena!!!