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Pra que casar, Tigrão?

Atendendo a pedidos, volto a falar sobre Peter, Gwen e Mary Jane
Em 1972, Stan Lee encerrou suas atividades de editor-chefe e principal roteirista da Marvel Comics, para assumir a função de publisher. Gerry Conway se tornou o roteirista de Amazing Spider-Man, auxiliado nos primeiros meses pelo artista veterano John Romita no planejamento das histórias.

Juntos, e com as bênçãos do novo editor-chefe, Roy Thomas, decretaram a morte de Gwen Stacy, a namorada do Homem-Aranha. Eles entendiam que Gwen era uma personagem de fraco apelo dramático – ainda mais quando em comparação com a irreverente Mary Jane –, e que havia o risco de Peter Parker e Gwen acabarem no altar. Naquela época, isso estava fora de cogitação, pois a Marvel não queria que a série perdesse seu apelo teen (cerca de quatro anos depois, Mary Jane seria afastada das histórias pelo mesmo motivo).

Mas a morte da loirinha gerou protestos no fandom e trouxe vários desdobramentos para a turbulenta vida do herói aracnídeo. Afinal, durante anos, os fãs testemunharam os encontros e desencontros do casal... suas rusgas e rompantes de ciúme... e torcia, claro, que um dia, tivesse um final feliz.

Lee também raciocinava assim. Além de suas próprias declarações em várias entrevistas, uma prova cabal disso ocorreu na história publicada em ASM 99 (agosto de 1971), em que um protagonista amadurecido consegue seu primeiro emprego fixo e já pensa em casamento.

Na década de 1980, as histórias do Aranha perderam boa parte da graça que transformou o super-herói no grande sucesso das décadas anteriores; assim, trouxeram Mary Jane de volta à continuidade e reaproximaram os pombinhos novamente (incrível que ninguém pensou simplesmente em escrever boas histórias).

Ironia das ironias, adivinhe o que aconteceu? Tsc... deixa eu dizer uma coisa antes a respeito da edição do casório...

No meu entendimento, uma das grandes pisadas de bola em relação ao casamento de Peter Parker e Mary Jane (além do próprio acontecimento em si) em 1987, foi não escalarem Stan Lee e John Romita para produzirem a história.

Tudo bem que Stan cuidou do enlace matrimonial nas tiras de jornal, mas o que qualquer True Believer ao redor do mundo queria mesmo, era ver o bom e velho The Man salpicando os balões de falas com suas pérolas na versão comic book, é ou não é, intrepid one? Afinal, ali estava a continuidade original em que tudo começou. E com Jazzy delineando aqueles personagens página a página, principalmente a sua ruiva querida então...

WOW!

OK! Stan estava por fora dos acontecimentos dos últimos tempos nos títulos mensais, mas isso poderia ser resolvido com algumas pré-leituras básicas. Ademais, a história em si se tratava de um momento único, e não precisava ser tão amarrada à continuidade das mensais. E qualquer coisa, o editor estaria ali pra orientar (e corrigir). Nessa, Jim Shooter pisou feio na bola, e deixou a megalomania falar mais alto. No final, escreveu – junto com David Michelinie – uma das histórias de casamento mais chatas dos Quadrinhos (pior, acho que só a de Superman e Lois Lane nos anos 1990). Pra acentuar a ruindade, os estilos artísticos de Paul Ryan e Vince Coletta combinavam tanto quanto óleo e água. E convenhamos: até o último segundo, MJ estava indecisa entre Peter e um playboy misterioso. "Mulher perfeita" pra Peter, hein?
Bah!
Quer saber? Deram uma colher de chá danada para Mary Jane – coisa que Gwen, por exemplo, não teve –, ao implantarem, provavelmente, a maior de todas as marmeladas na saga do aracnídeo: o fato dela saber o segredo da dupla identidade do herói. “Culpa” de Tom DeFalco e Ron Frenz.

Posteriormente, Gerry Conway (sempre ele) piorou mais ainda as coisas, ao mostrar nas páginas de Parallel Lives (graphic novel inédita no Brasil), que a sobrinha de Anna Watson sabia que Peter e o Aranha eram a mesma pessoa desde a fatídica HQ de origem em Amazing Fantasy 15.
Afê...
Convenhamos, com uma cumplicidade dessas, não há garota que possa competir com Mary Jane (ainda mais, quando, tempos depois, acabaram com a reputação de Gwen na horrível história dos filhos que teve com o aloprado Norman Osborn).

Quem acompanhou na época as cento e poucas primeiras histórias de ASM na seqüência, de cabo a rabo (seja nos originais, ou pela EBAL, Bloch e RGE), no fundo sentiu que havia alguma coisa de errado com aquela moça. Não havia motivo algum para Peter se interessar por uma mulher tão egoísta e fútil (a “antítese” de Gwen), pura e simplesmente.

Pelo menos, até DeFalco assumir o título.

E foi o próprio roteirista quem esclareceu isso pros leitores, em entrevista cedida a este chapa aqui, e publicada em Wizmania 1ª série 46 (julho de 2007). “Ron Frenz e eu tentávamos entender por que um cara inteligente como Peter Parker se interessaria por Mary Jane. Tudo bem, ela era bonita, mas havia muitas outras mulheres lindas, também. Era preciso algo mais... algo que nós não soubéssemos. Por fim, concluímos que Mary Jane era um tanto quanto parecida com Peter... que ela também usava uma máscara.”, daí que construíram todo um passado sofrido para a ruiva, com pai violento, mãe submissa, irmã abandonada, blábláblá.
Snif!

(E os Stacy? Que família nota 10! Stan, eu sei que você não gosta de ouvir isso, mas vá lá: “A Marvel persegue os Stacy!” sim, senhor!)

Hoje as coisas estão uma gracinha nas HQs do aracnídeo, né, não? Antes chamassem Alan Moore para escrever “O que aconteceu ao Cabeça-de-Teia?”, igual ao que o doidivanas inglês já havia feito com Superman anos atrás. Explorar com maestria todos os elementos-chave que compõem a grandiosa mitologia do personagem, mostrando para os outros autores como é que se faz uma genuína história de super-herói (até hoje os roteiristas da DC sofrem pra arrumar a zona que ficou a mitologia do Kryptoniano após as reformulações advindas de Crise nas Infinitas Terras).

Infelizmente, isso não vai acontecer, e o Aranha continuará nas mãos do Quesada e do diabo.

Alguém aí disse que dá no mesmo?

© Copyright Roberto Guedes

Este texto é na verdade a fusão de vários comentários expostos ao longo dos últimos anos em fóruns e listas de bate-papo - além de trechos retirados da introdução do fac-símile de ASM 99, que veio junto com a edição Homem-Aranha: Grandes Desafios 4 -, e foi revisado e atualizado pelo próprio autor.


Comentários

Lucas disse…
Muito bom texto, Guedes. Explicou direitinho as diferenças de MJ e Gwen. Admito que nunca fui fã da ruiva, embora a fase de Andru e Conway tenha sido boa. Mas sempre preferi a filha do delegado. hehe
Wendell disse…
Muito obrigado mesmo, chapa! Eu fui um dos que pediram para você falar novamente do Peter e da Gwen.
Ok! Diante do seu texto, fica o aprendizado. Não há o que acrescentar – a não ser que concordo plenamente com ele.
Realmente é muito bom ler um texto de um profissional que conhece do ramo e entende – como poucos (poucos mesmo) – esse quase real Peter Parker.
“Um Dia a Mais” foi medíocre e “Pecados Pretéritos” foi medíocre ao quadrado. Os argumentos usados nessas duas histórias foram – na melhor das hipóteses – rasos e irresponsáveis. Feito por pessoas que não se importam com o mito, com o conceito e mensagem desse personagem chamado Homem-Aranha.
Veio a nova fase (e talvez por ter me livrado do JMS), achei as primeiras duas revistas – publicadas no Brasil – legais. Todavia, as duas últimas foram sofríveis. Então também me pergunto: Será mesmo tão difícil fazer boas histórias? Bem, creio que fazer boas histórias – nem de longe – é o intuito de Joe Quesada.
Quanto à história “O que aconteceu ao Cabeça-de-Teia?” – de coração – você poderia escrevê-la com tranqüilidade.

Abraços, mestre!

Wendell
ZeBorba disse…
Grande texto, aracnídeo Guedes!!!
Anônimo disse…
Não conhecia essa graphic novel. Que droga! A Abril pulou um monte de coisa boa.
Rogerio
Anônimo disse…
Mais uma vez Guedão arrasou. Depois deste texto nada mais há pra se dizer sobre esse assunto.
Parabéns!

Cesar
Roberto Guedes disse…
Amigos, muito obrigado pelos aracnocomentários!


"Aracnídeo" Guedes - rs
Guilherme disse…
Eu penso igual sobre esse triângulo Peter-Gwen-Mary Jane.

Inclusive se observarmos as mudanças feitas na personalidade da Mary Jane dos anos 80 em diante, notamos que não foram nada sutis.
Eles forçaram pra amdurecer uma personagem que o próprio Stan Lee tinha escolhido não amadurecer na sua fase como roteirista.

Enquanto Peter e Gwen, em suas primeiras aparições, eram verdadeiros aborrecentes e Stan gradativamente os transformou em um homem e uma mulher reconhecíveis aos olhos do público.

E outra coisa que me incomodava no casamento era o Peter ter a lua-de-mel paga pelo tal "cafa" que "patrocinava" a Mary Jane e eles irem morar na cobertura paga por ela.
Poxa, nas histórias do Lee, Peter vivia em constante crise pela Gwen ter mais dinheiro do que ele e jamais aceitaria se casar com ela nessas circuntâncias.

Pra mim, Pecados Pretéritos e Um Dia a Mais não surgiram assim do nada.
Elas são resultado de uma série de pequenas decisões erradas que a Marvel tomou ao longo dos anos com o sobrinho do Tio Ben, criando um efeito bola de neve.
Roberto Guedes disse…
Considerações bem apropriadas, Guilherme. Também concordo contigo.

Realmente não faltaram incoerências às HQs do Aranha de meados dos anos 1980 pra cá.
Infelizmente... pois trata-se de um personagem formidável.
Anônimo disse…
Boa Guedes! Como diria o Sandrão: " Putz, ele fez de novo!"
Na minha opinião o Peter deveria ter ficado com a Gwen e com a Mary Jane! HAHAHA! Brincadeiras a parte, concordo que as aventuras do Aranha estavam um tédio só, e por falta de criatividade fizeram este maldito pacto com o Mefisto!
Daonde tiraram que o amor dos dois é único? Porque o capeta não pegou Reed Richardfs e Suzan? Ou outro casal qualquer do planeta? Mais uma vez vou engolir alguns sapos para continuar gostando da Marvel?
Andre